O mundo das transmissões de futebol na TV pode ser mais sujo e pesado que o das empreiteiras
Jogar o jogo
Já contei as três histórias aqui, separadamente.
José Maria
Marin, então presidente da FPF, em 1985, depois de ter sido governador
biônico de São Paulo, me garantiu, num voo para Assunção, que era impossível
sair pobre do Palácio dos Bandeirantes.
Íamos ambos a um jogo da
seleção brasileira contra a paraguaia pelas eliminatórias da Copa de 1986.
Dizia ele que
independentemente da vontade do político, tudo que se fazia no Estado separava 10% ao governador e não seria ele a mudar tal estado de coisas.
Nunca antes eu estivera
com Marin.
Dez anos depois, recebi
a visita de J. Hawilla em meu escritório, pois eu acabara de iniciar minha
carreira solo depois de 25 anos de Editora Abril. Roberto Civita me pedira para
parar de criticar Ricardo Teixeira, porque eu inviabilizava que a TVA fizesse
contratos com a CBF.
Hawilla
dizia não aguentar mais ter de acordar antes dos filhos para pegar a Folha,
e esconder deles, caso tivesse alguma coluna minha contando seus malfeitos.
Jurou que não era sócio de Ricardo Teixeira e garantiu que
adoraria viver num mundo em que não fosse necessário
comprar cartolas, mas que ele jogava o jogo.
Tínhamos até pouco tempo
antes deste encontro uma boa relação. E ele me propôs ser sócio da Traffic.
Finalmente, em 1992, eu
havia sido convidado para almoçar com o engenheiro Norberto Odebrecht.
Então, além da “Placar”,
eu dirigia a “Playboy”, que fizera reveladora reportagem sobre as empreiteiras
brasileiras, de autoria do repórter Fernando Valeika de Barros.
Era demolidora. Como
ilustração, um muro de ouro, lama e sangue.
O fundador de uma das
maiores construtoras do país foi direto ao ponto, após elogiar a exatidão do
que havia lido: “Você acha
que eu gosto de ter de pagar para bandido liberar o que os governos me devem?”
Antes de responder, me
lembrei da conversa com Marin.
Ao responder, com a
arrogância que caracteriza a nós, jornalistas, primeiramente agradeci o elogio
feito à reportagem. E em vez de responder, fiz nova pergunta: “Mas por que
alguém tão poderoso como o senhor não denuncia os bandidos?”.
“Porque eles acabam
comigo e com milhares de empregos que mantenho no Brasil e no exterior.”
Não me restou outra
saída que não a de dizer que por essas e por outras é que sou jornalista, não
empreendedor.
Diga-se, a bem da
verdade, que em nenhum momento da realização da matéria houve qualquer pressão
por parte da Odebrecht, diferentemente do que fez a CBF para negociar direitos
de TV com a Abril.
Tudo isso para contar
que o mundo das transmissões esportivas pode ser mais sujo e pesado que o das
empreiteiras.
Além de ter um charme,
um glamour, ainda maior, uma gente esperta que, de repente, vai a Suíça e fica.
Presa.
E também para insistir
que ou se criam novos métodos de governança ou tudo seguirá na mesma porque o
Homem, como se sabe, é um projeto que não deu certo.
ATENÇÃO: as palavras na cor vermelha constam originariamente no
texto, mas os destaques são deste BLOGUEIRO.
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