O catastrofismo, uma via para a catástrofe. Por Emir Sader. Do Portal Carta Maior. No Brasil 247.
- Seguir
no labirinto ou jogar tudo pela janela? O falso dilema -
Quando a história
nos coloca dilemas difíceis de resolver, o catastrofismo é um bom consolo: tudo
vai para o pior dos mundos. Ou mudamos tudo radicalmente, abandonando tudo o
que foi feito até aqui ou despencaremos inevitavelmente no abismo que nos
aguarda ali na esquina.
Nessas visões
coincidem vozes distintas. Por um lado, as bem intencionadas, que acusam como
as formas predatórias de vida predominantes dilapidam os recursos naturais, aprofundam formas de vida
irresponsáveis, fazem o mundo se aproximar de catástrofes naturais e sociais.
São vozes que absolutizam tendências realmente existentes, sem levar em conta
as contra tendências.
É o problema de
todo catastrofismo: isolam tendências e as projetam para o futuro, sem tomar em
consideração as outras diretrizes igualmente presentes, de forma contraditória,
na realidade concreta. Terminam se refugiando numa visão escatológica, que não capta os movimentos e as contra tendências que
disputam a hegemonia no mundo realmente existentes. São vozes que sempre
existiram e servem como chamados morais sobre os riscos presentes nos dilemas
atuais, sem servir para orientar a construção de vias alternativas nos marcos
históricos do mundo real.
Por outro, estão as
aves de rapina, aquelas que só aparecem quando aparentemente não existem
alternativas concretas e eles pretendem apontar para soluções messiânicas, que
jogariam tudo
pela janela, para aderir a suas visões intelectualistas e sem nenhum vínculo
com a realidade concreta. São fabricantes de programas para todo político que
lhe solicite, de distintas tendências, dispostos a contratar seu verbo. São os
mesmos que haviam anunciado catástrofes irresolúveis no fim do século passado e
nunca se renderam aos avanços que países como o Brasil e outros da região conseguiram
avançar, em meio a labirintos que pareciam insolúveis.
Simples é abandonar
o caminho quando parece que todas as vias apontam para a mesma direção, quando
parece que os labirintos nos condenam a repetir caminhos sem saída. Difícil é
seguir a sábia orientação: de um labirinto se sai por cima, ao invés de ficar
rodando interminavelmente pelos seus meandros de sempre.
O ceticismo que
corre solto por aí, típico de época em que as alternativas não aparecem claras,
joga tudo pela janela. Como não valoriza a forma espetacular de reação dos
governos progressistas latino-americanos a uma situação similar a esta – em que
parecia que não se sairia mais nem do neoliberalismo, nem do endividamento com
o FMI -, afirma que nada de importante aconteceu neste século.
Senão, teria que
valorizar que o continente mais desigual do mundo – e, dentro dele, em especial
o Brasil, o país mais desigual do continente mais desigual – tenha conseguido diminuir a pobreza, a miséria, a exclusão
social e a desigualdade. Tendo construído, num marco internacional e recebendo
uma herança maldita, um modelo que conseguiu retomar o crescimento econômico
intrinsecamente vinculado à maior distribuição de renda que nossa história já conheceu.
O Brasil precisa
dar uma virada na sua trajetória. O esquema montado por Lula entrou em crise.
Mas a alternativa não pode desconhecer tudo o que foi construído. Ao contrário,
terá como objetivo a forma de preservar e aprofundar tudo o que foi
conquistado. Não se trata nem de retroceder ao que havia antes, nem de desconhecer tudo o que foi
avançado.
O futuro se
constrói abrindo novos horizontes, novas perspectivas, novas utopias, mas
resgatando o que fomos capazes – contra vento e tempestade, contra todos os
ceticismos e os catastrofismos – de construir.
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