‘Não há lei de ferro nas urnas’: Marcos Coimbra aponta caminho para virada de Lula no segundo turno
P O R
A narrativa de que o desfecho do primeiro turno traça um destino imutável para a eleição presidencial foi rechaçada pelo sociólogo Marcos Coimbra, diretor e fundador do Instituto Vox Populi. Em entrevista ao jornalista Fernando Morais no programa Nocaute, na TV 247, o especialista analisou a curta distância que separa os dois candidatos, o volume expressivo de abstenções e as contradições do projeto adversário para assegurar: a virada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no dia 25 é um cenário plenamente viável.
A dinâmica do segundo turno e o precedente recente
Coimbra fez questão
de recorrer à história eleitoral recente para alertar contra o derrotismo. O
sociólogo recordou como as disputas de segundo turno ganham vida própria,
alterando correlações de força em prazos exíguos:
·
O espelho de 2022: O pesquisador lembrou que, na eleição anterior, uma vantagem inicial
expressiva de mais de seis pontos percentuais foi comprimida com velocidade
vertiginosa até a abertura das urnas, comprovando a elasticidade do eleitorado
quando o confronto passa a ser direto.
· Margem estreita: Com as pesquisas pós-primeiro turno indicando uma separação de apenas
dois pontos percentuais — dentro da margem de erro —, a disputa começa, na
prática, sob condição de empate técnico.
· Comparação direta: Na avaliação de Coimbra, o afunilamento em apenas duas candidaturas
retira a cortina de fumaça da multiplicidade de palanques. O peso do exercício
da Presidência, as entregas materiais do governo e o contraste entre
trajetórias públicas consolidadas e nomes testados apenas pela retórica digital
passam a ter peso determinante.
Crise do capitalismo global e a armadilha da “falsa novidade”
Ao analisar o
avanço da bancada conservadora no Congresso e nas assembleias estaduais, Marcos
Coimbra buscou afastar leituras simplistas que atribuem o resultado a meros
erros táticos de campanha. Para o sociólogo, o Brasil vivencia os
desdobramentos de uma crise estrutural prolongada:
“O capitalismo do
bem-estar social, que garantiu distribuição de renda e ampliação de direitos na
segunda metade do século XX, entrou em colapso com a crise de 2008. O modelo
que o sucedeu é incapaz de entregar segurança material. O resultado é o
sentimento de frustração que alimenta a ilusão de que qualquer rosto desconhecido,
cuja única credencial é dizer ‘sou diferente’, representa uma solução real.”
Coimbra ponderou
que a ascensão da direita em diversas regiões da América do Sul e da Europa não
traduz uma adesão ideológica consciente a programas ultraliberais, mas sim um
voto de protesto volátil. Prova disso, segundo ele, é a curta duração dos
mandatos e a sucessiva alternância de poder registrada em países vizinhos que
desmantelaram suas redes de proteção pública.
A força do piso eleitoral e a disputa da maioria
Apesar de uma
década inteira de fustigamento midiático e perseguição política contra o campo
progressista, Coimbra destacou a impressionante resiliência da liderança
popular de Lula:
·
Piso histórico de sustentação: Desde o início dos anos 2000, o Partido dos Trabalhadores mantém uma
base sólida que oscila próxima de metade do eleitorado nacional, patamar
raríssimo em democracias ocidentais marcadas por fragmentação.
·
A falácia do desmonte social: O pesquisador desfez a narrativa liberal que classifica programas como
o Bolsa Família como desincentivo ao trabalho, traçando um paralelo com
discursos do século XIX que criminalizavam a pobreza para justificar o corte de
recursos essenciais.
·
O eleitor em disputa: O contingente superior a 30 milhões de brasileiros que não compareceram
às urnas ou anularam o voto no primeiro turno representa a chave da virada.
Para Coimbra, convencer esse eleitorado de que a retirada de direitos
trabalhistas e o congelamento de benefícios previdenciários atingirão
diretamente suas famílias é a prioridade decisiva até o dia da votação.
O diretor do Vox
Populi concluiu apontando que a corrida eleitoral está em aberto e dependerá da
capacidade de traduzir o projeto de reconstrução do país em garantias palpáveis
para a vida cotidiana do trabalhador.
“É uma
tolice dizer que não existe caminho para modificar o resultado de um primeiro
turno. Não existe nenhuma lei de ferro na política brasileira que impeça quem
ficou em segundo de ultrapassar na etapa final. A distância entre os dois é
muito pequena e as vulnerabilidades do adversário são evidentes”, ressaltou Coimbra.
*Marcos Coimbra Marcos Antônio de Salvo Coimbra foi um diplomata brasileiro; foi secretário-geral da Presidência da República durante o governo Collor. Pai de três filhos, Marcos Antônio Coimbra, Gastão Coimbra e Fernando Coimbra. Após enviuvar muito cedo, casou-se com Leda Collor de Mello.




