Por que Castigas tanto minha filha, Senhor?
Era janeiro de 1998,
tinha 39 anos, três filhos lindos adentrando a adolescência (10, 12 e 16 anos),
uma mulher amorosa, fiel, linda, humana, piedosa, humilde, generosa, cuja fé em
ti não tinha limites. A vida sorrira, até então. Nada nos faltava e até um
pouco nos sobrava.
Sobre este filho, não
pesava culpa qualquer. Levara, até então, vida honesta, sem a mácula do ódio,
do egoísmo, da inveja, da avareza, da soberba.
Tratava com respeito
e generosidade àqueles aos quais dera emprego na empresa fruto do
empreendedorismo com que me Abençoaste, ignorando “alertas” de outros empreendedores
no sentido de que não se deve gerir um negócio com o coração.
Estávamos passando as
férias dos filhos na praia e nos Concedeste a graça de mais uma criança em
nossas vidas; eu e ela concebemos pela quarta vez, em uma das noites de paixão
que ainda tínhamos tão intensas após uma década e meia de união feliz.
Este Vosso servo até
flertou com a hipótese de não deixar vir mais um filho àquela altura da vida,
agora que, após tanta luta, já estávamos bem mais próximos, eu e ela, de
entregar ao mundo os outros três frutos de nosso amor e, assim, poderíamos nos
dedicar a nós dois.
Mas não faria
sentido. Se nem quando concebemos pela primeira vez uma criança, quando o
futuro era incerto, quando a luta pela sobrevivência era extenuante, sequer
cogitamos impedir aquele nascimento que tanto aumentaria nossas dificuldades,
não seria agora, após tantas bênçãos recebidas, com a vida financeira e amorosa
estabilizada, que impediríamos mais um filho de vir ao mundo.
Nossa decisão,
amparada por nossa fé em Teus Desígnios, fez com que nos viesse mais uma
criança, a qual amaríamos tanto quanto as outras três, porque mais seria
impossível, apesar de que transformáramos em coroação de nossa luta a gestação
com que abençoaste esta família.
Eis que nos chega
aquela que coroaria uma trajetória de tantos êxitos na edificação de um lar, de
uma família. Portanto, não haveria outro nome que lhe dar que não fosse
Victoria.
Nasceu linda. A mais
linda dos quatro, talvez. Robusta, comprida, com uma pele alva e rosada ao
mesmo tempo, e cabelos acobreados que logo cacheariam.
Os meses desde o
nascimento transcorreriam em paz, felicidade, júbilo mesmo. Os outros três
filhos a faziam de boneca. A filha que antes era a do meio, e que agora era a
segunda, apegou-se à irmãzinha quase como se fossem o mesmo ser.
Ao completar um ano,
escapou a primeira palavra de Victoria, chamando pela mãe. Fora seu último
progresso. A partir dali, em vez de progredir, a palavra nunca mais escapou de
seus lábios. Os movimentos, o equilíbrio e até o interesse infatigável pelo
mundo, comum aos bebês, simplesmente sumiram.
Guardava a
preocupação para mim enquanto que a família se recusava a enxergar. Até que, lá
pelos 18 meses, finalmente mulher e filhos cederam às minhas preocupações. As
desculpas dos médicos de que havia apenas “um atraso” em Victoria não mais
bastavam à mãe e aos irmãos.
Aos 23 meses da
chegada de Victoria, em uma tarde ensolarada de setembro, no consultório de um
dos mais renomados neuropediatras do país, um tsunami moral atingiu Vosso
servo, à mãe de seus filhos, a eles e à babá da criança naquele consultório
gelado como um iceberg.
Victoria tinha
Síndrome de Rett – ou, como simplificou o doutor, “paralisia cerebral”. Não
andaria, não falaria, não pensaria mais do que um bebê nem na infância, nem na
adolescência, nem nunca.
Não perdemos a fé.
Aceitaríamos Victoria como a Mandaste. Tínhamos fé em Vossos desígnios; se era
para ser, que fosse.
Uma década se passou
e, ao contrário do que esperávamos, a vida se tornou mais difícil. Não por
Victoria ter permanecido com a mente e as capacidades motoras de um bebê de
três, quatro meses de idade, mas porque os recursos financeiros soçobraram no
primeiro ano do século XXI – a eterna crise econômica brasileira me roubara a empresa.
A fé, porém, mais uma
vez não nos faltaria. Ainda levávamos uma vida digna. A empresa transformara-se
em um pequeno escritório de representação que ainda pagava as contas e
Victoria, apesar de que não andava, não falava, não tinha movimentos intencionais
dos membros e mergulhava em intermináveis crises de choro, tinha saúde.
Os tormentos, porém,
ainda não haviam sido suficientes. Em 15 de setembro de 2009, chego em casa,
uma noite, e ela mal consegue respirar. O seu peito ronronava como um grande felino,
talvez um tigre. Entre um choro e outro, ela engasgava, as faces chegavam a
roxear.
Corremos para o
hospital, que, imediatamente, a internou na UTI, onde passaria os três meses
seguintes e de onde sairia com uma gastrostomia – agora, alimentar-se-ia não
mais pela boca, mas por um orifício cirurgicamente implantado em seu abdome.
Pela boca, nem saliva podia passar, razão pela qual lhe extirparam as glândulas
salivares. Do contrário, pneumonia era certa.
Dali em diante, e
pelos próximos 24 meses seguintes, minha menina viveria mais no hospital do que
em casa.
Ainda assim, a fé não
nos faltava. Muito pelo contrário. A mãe nunca perdeu o sorriso, o ânimo em
cuidá-la, a generosidade, a benemerência social – à qual se entregou com denodo
–, e sempre apostando em cada nova possibilidade de melhorar a qualidade de
vida de nossa menina. Os irmãos, muito menos. Nunca lhes faltou coragem – nem a
Carla, nem a Gabriela, nem a André.
Vosso servo, tampouco
esmoreceu ou perdeu a fé. Em meados da década de 2000, decidiu colocar-se a
serviço dos desvalidos, daqueles que mal tinham o que comer, dos
desesperançados, dos injustiçados e humilhados.
Vi na política a
forma de melhorar a vida deste povo e criei esta página, onde travaria batalhas
homéricas pelas convicções em um projeto de país que, sim, estava resgatando
milhões e milhões do inferno da pobreza e da miséria.
Fiz o que pude sem
nunca pensar em recompensa. Tirei do bolso recursos que não poderia para manter
esta página, despendi horas infindáveis sem jamais ter auferido recompensas
financeiras.
Nunca pedi nada ao
Estado, nunca pedi nada aos leitores, nunca fiz desta página um negócio. Era a
minha forma de professar a fé em Ti, em que Cuidarias Victoria.
É certo que após
aqueles 24 meses de sofrimento com a saúde dela – a partir de 2009 –, a saúde
lhe melhorou, ainda que meu lar tenha tido que se transformar em uma sucursal
do hospital, com enfermeiras e terapeutas do home care vagando pela residência
dos Guimarães sete dias por semana.
Na madruga em que
deito estas palavras na página em branco do computador, porém, pergunto-me por
que tanto sofrimento. Não meu, de Cristina ou de nossos outros três filhos, mas
de Victoria.
Horas antes de
começar a escrever, enquanto cobria um evento político, a mulher que me deste,
liga. Ao ver na tela do celular que era ela, estremeci. Ao atender, sua voz
pedindo que voltasse para casa, aterrorizou-me. Era Victoria.
À porta do prédio,
uma ambulância. Arremeto o carro pela garagem com tanta sofreguidão que arranho
a lateral. Ganho o elevador, ofegante, suarento. Praticamente arrombo a porta
do apartamento, onde encontro paramédicos e uma doutora.
Ouço, incrédulo, o
relato. Ela expelira sangue pelas fezes; estava desfalecida; lábios separados;
peito ofegante; olhos cerrados; pálida como prefiro nem dizer.
Teríamos que aguardar
o hospital dar sinal verde de que tem a vaga, o que só seria possível após a
alvorada, ou mais.
Não é por mim, nem
por ela, nem pelos outros três filhos, mas por Victoria que pergunto, Senhor.
Se foi algo que fiz e não lembro, se foi Cristina que O ofendeu, por que não
Castigas a nós em vez de a Victoria? Por que ela deve pagar pelos meus pecados,
já que sua mãe é um ser de pura luz, que não pode ter mácula alguma?
Não sei o que fiz,
mas só eu posso ser o responsável por essa Fúria Divina que açoita essa
inocente.
Não suporto mais,
Senhor. Suportaria qualquer flagelo em meu corpo ou mente. Entregar-me-ia a ti
para a Punição sem pestanejar. Executaria com alegria qualquer obra
benemerente. Extirparia qualquer membro de meu corpo, entregar-te-ia a luz dos
olhos, a própria vida em alegria para não ver Victoria sofrer mais.
Dai-me um sinal,
Senhor. Dizei-me o que devo fazer. Castiga-me, Leva-me a vida, a luz dos olhos, o movimento do corpo, mas Poupa Victoria desses sofrimentos infindáveis sobre
seu corpo frágil como o de um passarinho.
Não posso mais
prosseguir vendo-a sofrer dia após dia, semana após semana, mês após mês, ano
após ano. Cheguei ao limite, Senhor. Ouvi-me, Socorrei-me. Até a fé me escapa.
Tenho que recorrer à fé alheia, porque a minha se apequenou.
Perdoa-me, Senhor,
mas sou só um homem.
EDUARDO GUIMARÃES
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