A casa-grande e a senzala
Gigolette em Estocolmo
porMino Carta*
O governo enche as burras de quem bate nele dia e noite e não hesita em manipular, omitir, inventar e mentir
A Folha de S.Paulo está de parabéns: na sua edição de quarta 17
provou que o governo federal tem acentuadíssima vocação para mulher de apache,
a gigolette que gosta de apanhar do gigolô. Ou se trataria de uma forma
aguda da síndrome de Estocolmo? De todo modo, a reportagem desdobrada a partir
da manchete da primeira página demonstra, com precisão de teorema pitagórico,
que o governo cumula de favores aqueles que o denigrem ferozmente dia após dia.
O trabalho em questão, de página inteira no interior da edição, informa
que entre os anos 2000 e 2013 as Organizações Globo ganharam 5,2 bilhões em
publicidade das estatais e a Editora Abril mais de 500 milhões. A Folha
faz questão de dividir a mídia nativa em dois campos. De um lado, a maioria das
empresas, reunidas neste canto sem maiores esclarecimentos. Do outro, as
“empresas alinhadas ao governo”, encabeçadas pela Editora Confiança, que
publica CartaCapital, Carta na Escola e Carta Fundamental.
E nós não passamos de 44,3 milhões.
Dirá o desavisado: alinhados e mal pagos. Vale aqui, antes de mais nada,
uma reflexão. Que significa alinhado? No governo de Fernando Henrique, não
vimos a cor de um único, escasso anúncio de estatal. E como se deu a nossa
sobrevivência nos oito anos tucanos? Teria nos socorrido o ouro de Cuba ou de
Moscou?
Apoiamos a candidatura de Lula em 2002 e 2006 e a de Dilma em 2010 e
2014, de acordo com uma prática comum em países democráticos e civilizados.
Apoiamos, de início, e confirmamos ao longo do tempo, por razões larga e
frequentemente esclarecidas aos leitores. Os governos de Lula e Dilma são
pioneiros na realização de uma política de inclusão social muito bem-sucedida e
de uma política exterior independente dos interesses do império americano,
ambas vitais para o País. Em outros pontos, no decorrer desses 12 anos, fomos
críticos severos. Por exemplo, em relação a uma política industrial ineficaz.
Ou à rendição aos transgênicos. Ou a toda e qualquer medida econômica embebida
em neoliberalismo. Quanto ao PT, de pronto consideramos, e sublinhamos, que no
poder porta-se como os demais.
Ao listar os pretensos alinhados e ao não qualificar os demais, a Folha
nos atribui o papel de jornalistas de partido e com isso fornece outra prova:
como sempre, obedece aos seus naturais pendores e, no caso, manipula a
informação e omite a qualidade dos demais, alinhados de um lado só, guiados
pelo pensamento único enquanto, hipócritas inveterados, declamam sua isenção,
equidistância, pluralidade. Ou seja, inventam e mentem.
Vale entender que na visão de CartaCapital, o problema número 1 é
a herança de três séculos e meio de escravidão a manter de pé, até hoje, a
casa-grande e a senzala. Eis a primeira razão do atraso do Brasil. Desde a
precariedade de Educação e Saúde oferecidas à maioria até a falta total de um
Prêmio Nobel. Desde a atuação de juízes dedicados à política em vez de fazer
justiça até os oligopólios midiáticos. Desde a Ficha Limpa de Paulo Maluf até o
enterro da Satiagraha. E este é um aspecto capital: jornalões, revistões,
televisões e quejandos são os porta-vozes da casa-grande. De resto, é do
conhecimento do mundo mineral que os patrões da mídia nativa são moradores
remidos do edifício colonial, daí a naturalidade dos seus comportamentos.
Ideológicos? Pois é, ideológicos. E depois dizem que a ideologia morreu...
Ressalve-se que uma parte conspícua da chamada classe média fica um
degrau abaixo do mundo mineral em matéria de conhecimento, mas é claro a olhos
mais treinados que deste profundo desequilíbrio social, a contrariar mesmo o
capitalismo domesticado, conforme a definição do professor Belluzzo, brotam o
instinto de predação, a impunidade dos graúdos, e a vexatória peculiaridade da
democracia à brasileira. Pois inovamos Montesquieu, temos aqui Executivo,
Legislativo, Judiciário e Forças Armadas, o inesgotável poder militar. Há quem
sugira um quinto poder, o Mercado, o qual, no entanto, infesta o planeta todo,
cada vez mais imbecilizado.
Até agora não entendi por que o governo convocou uma Comissão da Verdade
para esforçar-se à toa em busca da própria e descobrir ao cabo que, desde a
saída, estava decidida a confirmação da dita lei da anistia imposta pela
ditadura. O resto da humanidade não sabe que crimes cometidos contra o gênero
humano prescrevem, como está a ser sacramentado por aqui, e sequer imagina que
a democracia possa conviver com um tribunal militar, habilitado a condenar o
próprio relatório da comissão convocada pelo governo.
Mas não há trégua para nossos padecimentos. Surge quem proponha julgar a
justíssima causa dos resistentes à ditadura. É como sustentar que, terminada a
Segunda Guerra Mundial, caberia na Itália esclarecer ao mesmo tempo as
responsabilidades de Hitler e Mussolini, em um canto, e dos partigiani
da Resistência no outro. Ou na França, de Hitler e de Petain, e dos maquis. Só
falta imaginar que, à margem do riacho, o cordeiro merece ser investigado tanto
quanto o lobo.
O Brasil vive não somente uma crise
moral, mas também a da razão. Talvez prepare o caminho para outra, maior e
fatal. Algo é certo: o Brasil não está maduro para o jornalismo honesto.
*Mino Carta
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