A construção da sociedade civil é um processo histórico de construção, invenção ou descoberta de instituições sociais
por Delfim Netto — publicado 02/12/2014 06:12 na Revista Semanal CartaCapital
Em São Paulo, de um lado, a direita boçalizada, do outro, a esquerda cretina
A história é mestra cruel. Costuma dobrar sua vingança sobre
os que não a decifram. Recentes demonstrações em São Paulo revelam sua falta de
misericórdia. Vimos de um lado uma boçalizada “direita” pedindo a repetição do
“curto-circuito” que durou duas décadas. De outro, uma esquerda, cretinizada e
incapaz de aprender, sugerindo mais uma vez o seu brilhante “curto-circuito”
que, quando bem-sucedido, costuma demorar sete décadas, pelo menos. Todos em
nome das suas “qualificadas”
democracias.
A
situação é preocupante. Explicita a profunda ignorância do ensino “engajado”
que controla a nossa educação. Nele se insiste na demonstração do etéreo: a superioridade do socialismo “ideal” sobre o
capitalismo “real”. Esconde-se a verdade empírica: a enorme superioridade do
capitalismo “real” (com todos os seus problemas) sobre as calamidades humanas e materiais produzidas pelo socialismo "real".
Já era
tempo de termos aprendido alguma coisa. A construção da sociedade civilizada é
um processo histórico, uma seleção quase natural, de construção, invenção ou
descoberta de instituições sociais que os homens vêm escolhendo há mais de 12
mil anos, quando começaram a se acomodar à vida urbana e a desenvolver a
atividade agrícola. Não existe o caminho privilegiado que poderia ser
antecipado por um “vidente”. Ele tem que ser construído andando! O acaso é tão
importante quanto na seleção biológica natural, mas ao contrário desta, ele tem
uma finalidade bem definida: a possibilidade de cada homem de libertar-se da
vontade do mais forte; de escolher livremente o seu destino; de realizar-se
pela sua própria atividade; de exercer o seu potencial inventivo e apropriar-se
dos seus resultados e ter a mesma oportunidade de todos os outros para
conquistar a sua dignidade.
Qual é a
condição necessária para a sobrevivência material e o crescimento de tal
sociedade? Ou, posto de outra forma, como coordenar a satisfação da
multiplicidade sempre crescente das necessidades materiais diferentes de
milhões de homens “livres” e “iguais” com a atividade produtiva de outros
milhões de homens “livres” e “iguais”? É aqui que entra a Economia com a noção
de eficiência produtiva, ou seja, a construção de instituições que aumentam a
produtividade do trabalho, como é o caso da organização dos mercados e da
propriedade privada, “inventadas” pelo homem quando as aglomerações humanas
atingiram certo tamanho.
Como disse o velho Keynes, a boa administração da economia não é a
civilização. É, apenas, a possibilidade da civilização!
Toda a história da busca da sociedade civilizada é um longo processo de “tentativas” e “erros” dos homens que vão descobrindo instituições para tentar conciliar três valores fundamentais não inteiramente compatíveis: a liberdade individual, a igualdade e a relativa eficiência produtiva. O que chamamos de “capitalismo” (o conjunto de instituições que hoje nos governam) é apenas um episódio dessa história.
Toda a história da busca da sociedade civilizada é um longo processo de “tentativas” e “erros” dos homens que vão descobrindo instituições para tentar conciliar três valores fundamentais não inteiramente compatíveis: a liberdade individual, a igualdade e a relativa eficiência produtiva. O que chamamos de “capitalismo” (o conjunto de instituições que hoje nos governam) é apenas um episódio dessa história.
Ocorre que a combinação desses valores é inconsistente, a não ser
em condições muito restritivas. Essa é uma das razões pelas quais os
“curtos-circuitos” postos em prática por alegres asseclas do gênio verdadeiro
(Marx) que lhes deixou a tarefa de testá-los (Lenin, Stalin, Mao, Chê e tutti quanti) sempre terminam
em “apagão” depois de 70 anos de sofrimento! A História mostrou que a “verdade”
chega sempre tarde demais...
Ninguém
conhece o futuro do “capitalismo” que estamos vivendo. Apenas sabemos que ele é
um instante da evolução intencional na direção da sociedade civilizada. Como a
história mostra que o “seguro morreu de velho”, é melhor prestar-lhe atenção.
Continuemos a usar a Urna e o Mercado para ir construindo soluções cada vez
mais aceitáveis moralmente na busca da sociedade civilizada. O “emponderamento”
do cidadão comum cada vez mais educado através do sufrágio universal e a
promoção de boas condições de funcionamento dos mercados vão nos levar ao
limite possível da compatibilização da liberdade individual com a relativa
igualdade e a eficiência econômica.

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