Uma
decisão exemplar da justiça em caso de calúnias e ódio homofóbico
por Jean Wyllys
Deputado Jean Wyllys pelo PSOL do Rio de Janeiro
2ª Vara Federal de Natal condenou Márcio Damasceno a prestar serviços
comunitários numa instituição que ajuda pessoas homossexuais após ele ter feito
post com ameaças de morte e homofobia
“Eu falei do deputado
federal endemoniado Jean. Se Deus não matar esse infeliz, eu mesmo vou matá-lo
pessoalmente. Querem respeito desrespeitando as leis de Deus e os princípios da
Bíblia Sagrada. Mas rapaz, quem vai virar homofóbico agora sou eu.”
Márcio
Damasceno achou que poderia publicar no seu perfil pessoal do Facebook uma
ameaça de morte contra mim — ou contra quem quer que fosse — e nada
aconteceria. Nesse país, veado é morto todo dia e nada acontece, não é? Na sua
imaginação doentia, Deus, a Bíblia e seus “princípios” estavam do lado dele e o
habilitava para ameaçar de morte outra pessoa sem que houvesse consequências.
Contudo,
a Polícia Federal não concordou com Márcio. E nem o Ministério Público que atuou
junto à 2ª Vara Federal de Natal.
De
acordo com a ata da audiência conciliatória realizada no dia de hoje (sexta dia
04), na sala do tribunal, Márcio Damasceno deverá prestar serviços comunitários por
oito meses, a razão de sete horas por semana, na Sociedade Viva, que cuida de
homossexuais em situação de risco no município de São José de Mipibu, a 45 km
de Natal.
A proposta de transação
penal do MP foi, por vários motivos, exemplar, e eu quero contar a história
completa, para que sirva de exemplo.
Tudo começou com uma
matéria publicada pelo Sensacionalista, um excelente site de humor que publica notícias
falsas sem enganar ninguém, já que avisa aos leitores que tudo o que publica é
fictício. O objetivo do Sensacionalista, do qual sou leitor assíduo, é provocar
a reflexão dos internautas sobre temas de interesse político e social,
valendo-se para isso do humor e da ironia.
“Bancada gay lança projeto
de lei para proibir o casamento de evangélicos”, dizia a manchete da matéria,
segundo a qual a inexistente bancada homossexual do Congresso, liderada por
mim, tinha apresentado um projeto de lei para alterar o Código Civil e proibir
aos evangélicos o direito a se casar.
Vejam
a ironia: a notícia, obviamente falsa, brinca com outra, infelizmente
verdadeira: a bancada “evangélica” (que, diferentemente da falsa bancada
gay, existe sim) está tentando aprovar no Congresso um projeto de lei,
cinicamente chamado de “Estatuto da Família”, que tem por objetivo discriminar
milhares de famílias, negando aos homossexuais o direito a se casarem (direito
já conquistado por decisão do Conselho Nacional da Justiça após uma
representação promovida por meu mandato) e desconhecendo, para todos os efeitos
legais, a existência das famílias formadas por casais do mesmo sexo.
Ou
seja, o Sensacionalista apresentava uma notícia falsa que espelhava,
ironicamente, outra verdadeira, para mostrar quão absurda é a pretensão
autoritária da bancada
homofóbica, mal chamada “evangélica” (os evangélicos de verdade não
merecem ser confundidos com esses pilantras que exploram a fé alheia e espalham
ódio na sociedade), que quer negar a gays e lésbicas direitos civis básicos
garantidos pela Constituição Federal.
A
matéria humorística do Sensacionalista, porém, foi reproduzida como se fosse
verdadeira por um site “evangélico” (uso aqui novamente as aspas por respeito
aos evangélicos de verdade), a “Rede Promessa”, com o intuito de convencer seus
leitores de que o falso projeto realmente existia. O recurso é o mesmo que
quando dizem que eu me referi à Bíblia como “uma palhaçada” e aos cristãos como
“doentes”, o que obviamente jamais disse e nem penso: os pastores pilantras
tentam me colocar como inimigo dos cristãos.
Contudo,
dessa vez, não inventaram uma notícia falsa, mas reproduziram como verdadeira
uma matéria humorística. O pastor “evangélico” Davi Morgado compartilhou o post
calunioso da “Rede Promessa” em diversas oportunidades, provocando dezenas de
comentários ofensivos e xingamentos contra mim. A mentira começou a se espalhar,
recebendo milhares de compartilhamentos.
Um
deles foi o de Márcio Damasceno, quem além de reproduzir a notícia falsa como
se fosse verdadeira, declarou publicamente em seu perfil que estava disposto a
me assassinar, caso o próprio Deus não me matasse (vejam a ideia distorcida que esses falsos “evangélicos” têm sobre a
personalidade do seu deus, que imaginam como um psicopata homicida).
A
difamação e a calúnia são crimes graves, mas a ameaça de morte é ainda mais
grave. Contudo, eu não acredito que Damasceno realmente tenha pensado em me
matar. Ele foi muito estúpido e irresponsável e, em depoimento à Polícia
Federal, reconheceu seu crime e se mostrou arrependido. Por isso, meus
advogados não
pediram para ele uma pena de prisão.
Eu
tenho dito e repito aqui que não acredito que a gente vá erradicar o
preconceito mandando pessoas para a cadeia. Claro que quem comete um crime
violento (quem mata, estupra, espanca, agride fisicamente ou coloca em perigo a
saúde, a integridade ou a vida de outrem) deve ser preso (e deveríamos ter um
sistema prisional humanizado e eficaz para a reabilitação dos infratores),
porque essa conduta constitui uma ameaça para a sociedade.
Contudo,
quem ofende, xinga, reproduz preconceitos ou comete outro tipo de formas de
discriminação que não incluam violência física — ou, como aconteceu neste caso,
faz ameaças numa rede social que não passam de um ato de idiotice do qual logo
se arrependem — podem receber penas alternativas que, em vez de trancafiá-los
num presídio e embrutecê-los
ainda mais (porque nosso sistema prisional dista de ser humanizado,
infelizmente), os ajudem a aprender, a entender, a melhorar. Afinal, ele também
é uma vítima. Embora ele tenha agido com burrice e irresponsabilidade, quem
colocou essas ideias na cabeça dele foram os pastores pilantras, os vendilhões do
templo, os exploradores da fé.
Eles são os verdadeiros vilões dessa
história.
Por
isso, eu fiquei muito satisfeito com a proposta do Ministério Público, aceita
pelo juiz e pelo próprio Damasceno. Ele deverá prestar serviços comunitários
numa instituição que ajuda pessoas homossexuais em situação de vulnerabilidade
social.
Eu
acredito que a experiência vai servir para que ele mude, para que ele aprenda a
ver pessoas como a gente com outros olhos, sem a distorção criada pelo
preconceito e a ignorância motivada pelos discursos de ódio dos pastores pilantras. Ele vai
conhecer muitas pessoas homossexuais e vai poder vê-las como seres humanos tão
valiosos como qualquer um.
Eu
espero que isso mude a vida dele. E eu espero que sirva, também, como exemplo
para outros.
Precisamos
desterrar o ódio e o preconceito da nossa sociedade.
Precisamos
construir, através da educação, do acesso à cultura e da garantia da laicidade
do Estado, uma sociedade mais informada, menos preconceituosa, mais solidária e
mais empática.
ATENÇÃO:
as palavras na cor vermelha
constam originariamente no texto, mas os destaques são deste BLOGUEIRO.

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