
sábado, 5 de setembro de 2015
Temer e o “pescador em
águas turvas”
Por Paulo Moreira Leite, em seu blog
O vice-presidente Michel Temer
pertence a uma geração de homens públicos que aprenderam o significado da
expressão "pescar em águas turvas."
Trata-se de um ditado português muito
empregado durante o regime militar, que indica a atitude de quem procura
"aproveitar-se de situação confusa ou difícil para tirar proveito
pessoal."
Num governo com sinais permanentes de
desorientação, a presença de Michel Temer em São Paulo, ontem, num encontro de
executivos e empresários pode ser incluída nessa categoria. Como acontece com
as debutantes nos bailes de 15 anos, o vice-presidente, que já fará 75 no
próximo dia 23, apresentou-se à sociedade.
Era uma noite promovida com auxílio
do Movimento Acorda Brasil, o menor entre os pequenos grupos que procuram, de
qualquer maneira, derrubar Dilma de seu cargo -- numa ação que, se conseguir
superar inúmeros obstáculos e não incluir a queda de Michel Temer no mesmo
compasso, pode abrir espaço para que ele venha assumir a vaga da titular até
2018. Disponíveis da internet, as propostas do Acorda Brasil contêm um elemento
que deveria constranger Temer e simplesmente impedir sua presença no local.
Numa de suas cláusulas na luta contra
o que chama "totalitarismo" no Brasil, o movimento inclui uma medida
que, tomada ao pé da letra, pode levar à extinção do Partido dos Trabalhadores,
que permitiu a Michel Temer instalar-se no Palácio Jaburu, como você poderá ler
alguns parágrafos adiante.
Havia algo de arroz-de-festa na
presença do vice-presidente, sem interlocutores à altura naquele lugar. Nenhuma
fatia do PIB estava por ali, nenhuma liderança capaz de fazer o dólar subir ou
recuar.
A principal organizadora, Rosângela
Lyra, é alta executiva da multinacional Dior. Profissional com vida própria,
muito bonita e respeitada no meio, Rosângela Lyra foi personagem mais frequente
em colunas sociais quando era sogra do craque Kaká.
Um mês depois de dizer que o Brasil
precisava de "alguém para reunificar o país", Temer deu um exemplo em
sua capacidade de gerar consensos políticos. Lembrou seu papel na derrubada da
CPMF, na semana passada. Conforme relatam Pedro Venceslau e Letícia Sorg, no
Estado de S. Paulo de hoje, o vice contou o que disse a Dilma quando, durante
um telefonema, ela lhe disse que pretendia criar a CPMF: "eu fiz uma
ponderação: a situação do governo já não é boa aos olhos da população. Não é
boa aos olhos do Congresso. O governo sofrerá uma derrota fragorosa no
Congresso."
Pelo ambiente, o encontro de ontem
era um local onde se poderia defender o corte de verbas para saúde pública sem
o risco de causar o mais leve mal-estar.
Pelo cenário e pelos personagens
presentes, não se consegue encontrar uma explicação aceitável para a presença
do vice presidente da República naquela lugar, naquela hora, em posição tão
desfavorável para cumprir o dever de lealdade com o governo Dilma.
Numa roda, um dos empresários
sentiu-se tão à vontade diante de Temer que lhe perguntou se pretendia entrar
para a história como "oportunista ou estadista". (Como se fosse uma
conversa que dispensava maiores esclarecimentos, não se explicitou o que seria
uma coisa ou outra -- pois o "significado" dessas duas palavras se
modifica conforme o dicionário de cada ambiente e as perspectivas políticas de
cada pessoa. Ali, claramente, ser "estadista " era combater o governo
Dilma).
Seja como for, Temer tinha uma
interpretação que os presentes compreendiam muito bem e ficou na defensiva:
"em momento algum agi como oportunista."
Na mesma linha, Temer ainda se
referiu à aprovação do governo Dilma ("ninguém vai resistir três anos e
meio com esse índice de baixo") num tom que as manchetes do dia seguinte
interpretaram como justificativa para um golpe de Estado. Poderia, em outro
local, ser uma simples constatação política, quem sabe um apelo por mudanças e
melhorias. Não ali.
Basta entrar na internet para
conhecer um pouco sobre o Movimento Acorda Brasil, para compreender que o
convite enviado ao vice-presidente ultrapassa os limites da convivência
democrática e das proximidades do governo.
O Movimento se declara contra o
monopólio do Estado sobre "qualquer setor da economia", o que inclui
a Petrobras. Também combate o regime de cotas para negros e pobres nas
universidades públicas. Até aí, estamos no plano das liberdades de expressão e
de opinião, que incluem, sabemos todos, o direito de dizer asneiras.
Mas há um ponto grave. Numa linguagem
típica da extrema-direita norte-americana, o site do movimento defende a luta
contra o "totalitarismo" e os "totalitaristas". Entende por
isso a "cassação do registro de todos os partidos políticos" que
tenham relação com o Foro de São Paulo, cuja finalidade, diz, é "semear o
socialismo revolucionário em todos os países da América Latina."
É um proposta que, levada a sério,
nada mais é do que um pretexto para atingir em primeiro lugar o Partido dos
Trabalhadores em nome de um espantalho construído pelo anticomunismo mais
anacrônico, herdeiro dos tempos, aliás, dos "pescadores em águas turvas."
Imaginar que o PT tem uma relação de dependência, subordinação ou qualquer
coisa semelhante com o Foro de S. Paulo é acreditar numa tese ridícula, sem
apoio nos fatos.
Seja como for, não há nenhum artigo,
na Constituição brasileira, que impeça o livre funcionamento de organizações
favoráveis ao "socialismo revolucionário." Em 1988, os constituintes
confirmaram a plena liberdade de organização dos partidos políticos, garantia
que inclui quem é a favor do socialismo reformista, o revolucionário, meio
revolucionário e ultra revolucionário. Também permite o funcionamento de
organizações com idéias conservadoras e ultra conservadoras.
Quem não entendeu isso coloca-se
contra as regras da democracia em vigor no país.
Deu para entender?
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