A esquerda, geralmente, adora falar com o povo.
O
que é natural. A esquerda diz coisas como: vamos manter seus direitos
trabalhistas; vamos aumentar o máximo possível os seus salários, principalmente
os mais baixos; vamos baratear o transporte coletivo e as outras tarifas
públicas; vamos cobrar mais dos ricos para dar serviços melhores a vocês.
Esse
tipo de discurso agrada à massa de eleitores, e na democracia brasileira a
massa de eleitores decide a eleição.
Percebam
que a direita neoliberal vive criticando que as massas votam no PT porque o
petismo “compra” (?) as massas com bem-estar. Como eu sempre digo, a direita
neoliberal brasileira prega o voto masoquista.
Mas
imaginem a direita neoliberal em uma campanha política dizendo ao povo as
coisas que ela defende abertamente na Globo News (por onde o povo não passa nem
por engano): tem que conter os salários para aumentar a competitividade
(aumento real de salário só depois de muito aumento de produtividade); tem de
extinguir os direitos trabalhistas que encarecem a produção (eles querem
extinguir, além do FGTS, toda a remuneração dos dias não trabalhados: do
“descanso semanal” ao 13º e às férias de 30 dias, tudo passaria a ser negociado
diretamente entre patrões e empregados); tem de diminuir os impostos sobre as
empresas para desonerar a produção; os juros devem ser altos para conter a
bolha de consumo e brecar a inflação; o preço das tarifas públicas devem ser
“realistas” (altos) para atrair investimento privado e não distorcer a
economia. Etc.
Com
um discurso desses não se vence eleição nem pra presidência de clube de futebol
de botão, não é?
Então
a direita neoliberal sabe de uma coisa: ela não pode ser sincera na sua
comunicação com as massas.
Mas
sendo assim, como convencer o povo que é nela que o povo deve votar?
Simples:
assumindo um discurso moralista. “Vote em nós porque somos honestos. Não vote
na esquerda porque ela é corrupta”. Papo simples. Papo reto.

Diz
o eleitor consciente: “Ei! só isso não, é importante falar também das políticas
públicas! Vamos falar de salário, de direitos trabalhistas, saúde, educação,
transporte, tarifas, impostos, investimentos!”
A
direita retruca na hora: Ahá, defensor da corrupção! Petralha! Querendo fugir
do foco! Nada disso! Vamos falar de honestidade, só disso. Roubou, tá fora.
Essa é a única discussão que importa.
Deu
para entender, não é?
E
essa tática, essa cortina de fumaça ideológica é mais esperta ainda, vai além.
Herança
escravista? Selvageria das elites rurais? Elite empresarial predatória e
concentradora de renda? Para com isso! Não, não, não! No Brasil, a causa da
pobreza – e da unha encravada – é a corrupção. As elites são inocentes, tão
vítimas dos corruptos como todo mundo!
Não
é assim que lemos por aí? A corrupção é apresentada como o principal problema
do Brasil. E, claro, como a grande chave para a solução dos problemas do povo.
“Povo por favor entenda: se resolver a corrupção todo mundo vai ter bom
salário, geladeira cheia, hospital e escola padrão Fifa, carro zero na
garagem.”
Eis
um discurso que a massa gosta de ouvir. Um discurso que atrai atenção e dá
voto.
Mas
a direita ainda vai além e completa a estratégia.
Uma
equação de primeiro grau, redondinha.
Se
a causa da pobreza é a corrupção, e a esquerda (querem eles provar) é a
corrente política mais corrupta, então a causa da pobreza são os governos de
esquerda! E a solução para acabar com a pobreza é votar na direita moralista!
Não é genial?
Santa
manipulação da realidade, Batman!
Dá
para entender por que a esquerda se enfureceu quando as Jornadas de Junho, tão
necessárias, foram tomadas por cartazes “contra a corrupção”?
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