Abaixo da dignidade
por Paulo Moreira Leite, no Facebook

Flagrado numa
sucessão inesquecível de erros factuais no livro “Dirceu – A Biografia”, o
jornalista Otávio Cabral promete através da Folha de S. Paulo que vai fazer
correções na próxima edição.
Mas é difícil
escapar da pergunta. Se o livro não tivesse erros em tamanha quantidade seria
um uma obra aceitável como um produto cultural, destinado a enriquecer o
conhecimento dos brasileiros e o debate de nosso tempo?
Essa é a questão.
Erros acontecem em toda atividade humana: na medicina, na engenharia, no
Direito e no jornalismo.
Mas erros em
excesso não são detalhes. Espelham desconhecimento.
Quem erra muito
sabe pouco – aprende-se com uma criança em alfabetização ou com um adulto que
tenta falar daquilo que não entende.
Os erros de
“Dirceu” ajudam a entender o livro. Otavio Cabral escreveu uma obra onde os
fatos não tem a importância que deveriam ter numa obra que pretende se
enquadrar no gênero das biografias. Aqui, eles são descartáveis.
Podem ser trocados,
descartados, substituídos. Não tem valor em si. Servem a um propósito, que é
sustentar a visão de Cabral sobre Dirceu.
Além de fatos
quimicamente falsos, há outros, em estado vaporoso. Cabral não sabe são
verdadeiros, ou se não passam de puros boatos. Mas divulga tudo mesmo assim,
sem esconder a vontade de fazer carga – de qualquer maneira, por todo lado.
Como exercício de
terrorismo moral, o livro é uma exibição de má pontaria.
O problema real é
sua falta de conhecimento sobre personagem e os diversos contextos da vida de
José Dirceu.
Você atravessa mais
360 páginas e não consegue entender as causas da influência de Dirceu nas
últimas décadas da política brasileira. Não se trata de aprovar ou não o que
ele faz.
Trata-se de saber o
que ele fez, quando, onde, por que.
O autor não tem
conhecimento real sobre a ditadura militar que marcou a geração de Dirceu e de
tantos brasileiros.
Não faz ideia de
como era a vida no país daquele tempo, limitando-se a produzir julgamentos
ideológicos.
Também lhe faltam
elementos importantes para entender o que foi o processo de democratização e o
processo político que levou Lula e o próprio Dirceu ao Planalto, em 2003.
Já na orelha o
livro faz uma afirmação absurda: “em 2003, pela via democrática que não ajudara
a construir, (Dirceu) alcançaria o Palácio, ministro de um presidente eleito
pela esperança.”
Considerando
métodos honestos de discussão, não há como sustentar a noção de que Dirceu “não
ajudou” a construir a vida democrática no país.
Maior liderança
estudantil dos anos 60, exilado, guerrilheiro, no final da década de 70 Dirceu
atuou ainda na clandestinidade junto a movimentos que resistiam a ditadura,
pediam anistia aos presos políticos e foi um dos articuladores reconhecidos da
campanha das Diretas-Já.
Levando em conta o
tamanho reduzido do PT naquele início da década, seu papel como organizador da
ala mais combativa do movimento pelas diretas foi equivalente, todas as
proporções guardadas, à atuação de um governador como o tucano Franco Montoro.
Sem deixar de ser
amigo da ditadura comunista de Fidel Castro, anos depois Dirceu destacou-se no
esforço para aproximar Lula e o PT de forças políticas moderadas, capazes de
garantir uma base mais ampla para o governo.
Com apoio de Lula
foi o principal responsável pela elaboração de uma política de alianças que
ajudou a construir o bloco político que permitiu a vitória do PT nas eleições
de 2002 e mesmo em 2006 e 2010, quando se encontrava fora do governo
Os principais
adversários de Dirceu, durante muitos anos, foram vozes da ala esquerda do PT,
que denunciavam sua “aliança com a burguesia”.
Se estivesse em
busca do Dirceu real, e não de um mito adequado ao conservadorismo primitivo
que marca a formação política do país, Octávio Cabral teria registrado sua
atuação no Congresso e na Casa Civil para facilitar aproximações com
empresários, negociando acordos e desatando nós – e sempre tomando porradas
internas por isso.
Durante a campanha
de 2002, Dirceu foi aos Estados Unidos para estabelecer relações com o governo
do presidente republicano George W. Bush.
Naquele momento, a
candidatura Lula era alvo de uma campanha reacionária, em Washington, para
apresentá-lo como uma combinação de Hugo Chávez, alvo de um golpe de Estado no
início daquele ano, com apoio dos EUA, e de Fidel Castro, que a Casa Branca
tentou derrubar por meio século.
Dirceu retornou
como interlocutor legítimo do novo governo junto ao Departamento de Estado e da
embaixadora Donna Hrinak.
O acadêmico Mathias
Spektor assinala que naquele período Brasil e Estados Unidos atingiram um
padrão de bom entendimento poucas vezes conseguido ao longo da historia
diplomática dos dois países – e jamais reconhecido pela imprensa brasileira.
Seria absurdo
ignorar que Dirceu teve um papel pioneiro na construção desta situação.
Sem acesso a Dirceu
nem a fontes dispostas a ajudá-lo a formar uma visão consistente sobre 50 anos
dedicados à política, o livro contenta-se com entrevistas já publicadas e
envelhecidas.
Também dá credito a
relatos de segunda mão e depoimentos de velhos camaradas que se tornaram
adversários e até inimigos de Dirceu, método ideal para produzir uma obra que
transpira raiva e ressentimento.
Num exercício de
psicanálise à distancia, Cabral escreve que, filho de um pequeno empresário
conservador, em 1964 Dirceu apoiava o governo Jango “mais para se opor ao pai
do que por ideologia.”
Falando sobre 1968,
o livro enxerga a ação da ditadura contra os estudantes de um ponto de vista
que poucos observadores já tiveram enunciaram em público.
Comentando o
sucesso de uma das ações do líder estudantil Dirceu, a ocupação da Maria
Antônia, Otávio Cabral escreve que isso ocorreu por causa da “falta de
repressão.”
Então é assim. O
leitor precisava chegar a 2013 para Octávio Cabral dizer que em 1968 havia
“falta de repressão” no Brasil.
Como sabem até
alunos de curso fundamental, o regime militar cuidou de resolver essa situação
poucos meses depois, quando baixou o AI-5.
Preso naquele ano,
no fim do Congresso de Ibiúna, Dirceu planejava fugir da prisão porque tinha
“medo da tortura,” escreve Cabral, o corajoso.
Pelo método da
banalização do mal, o livro vai chegando aonde pretende.
Ameniza a
brutalidade da ditadura, num esforço necessário para reduzir o valor de quem
ousou mobilizar-se contra ela. Ao falar em “medo da tortura” o livro assume um
ponto de vista conhecido e lamentável.
A prática da
tortura, no mundo inteiro, tem um discurso estabelecido para tentar justificar-se.
Situados na posição
confortável de um interrogatório, torturadores profissionais preferem explicar
confissões obtidas por uma suposta falta de caráter de suas vítimas, pelo
“medo”, pela “covardia,” e não pela ação dos choques elétricos no pau de arara.
Numa tentativa de
explicar um comportamento desumano, querem fazer seus contemporâneos
acreditarem que, antes de vencer suas vítimas pela dor física, haviam sido
capazes de derrotá-las no plano moral.
Conforme esta
fabricação imoral, a covardia das vítimas era mais importante do que a dor que
efetivamente sentiam.
Lançado nas semanas
anteriores ao julgamento dos recursos da ação penal 470, era de se imaginar,
com otimismo, que o autor tivesse a ambição de trazer novidades nesse terreno.
Mas não.
O livro limita-se a
fazer coro com denúncias conhecidas, aproveitando a ocasião para tentar chegar
às listas de mais vendidos.
Levando a má
investigação policial para o campo jornalismo, “Dirceu” com aspas deduz,
infere, quer tornar plausível a visão de que Dirceu sem aspas era o chefe do
esquema – mas não tem provas nem fatos novos.
Octavio Cabral
entrevistou José Antônio Oliveira Lima, advogado de Dirceu, mas não teve
curiosidade de entender os argumentos de uma defesa que, como se sabe, obteve
um apertado placar de 5 a 4 numa deliberação importante, sem falar numa
condenação ampliada porque o presidente do STF Joaquim Barbosa cometeu um erro
de datas na hora em que definia a pena.
Por oposição, a
leitura de “Dirceu” me fez pensar em “Hitler”, de Ian Kershaw.
Uma das melhores
biografias jamais escritas, “Hitler” contém uma lição bem sucedida para um
exercício difícil: narrar a história de vida de uma pessoa pela qual o autor
não possui um milímetro de simpatia.
Trabalhando quatro
décadas depois da morte de Hitler, Kershaw escreveu um total de 1076 páginas.
Seu trabalho é impecável.
Não deixa nenhum
fato de lado, não perde o rumo nem confunde a realidade com seus argumentos nem
afirma o que não pode sustentar.
É um livro repleto
de ensinamentos universais de política, de história, de reações humanas.
Aplica-se, à
cultura, aquela verdade que Hanna Arendt descobriu para a Justiça.
Mesmo um nazista,
como Adolf Eichmann, tinha direito a um julgamento justo.
Por mais errada que
seja sua visão de José Dirceu, Octávio Cabral não tinha o direito de lhe dar um
tratamento abaixo da dignidade.
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