Roberta Sá
grava DVD do show “Delírio” no Circo Voador e comenta ataques de intolerância: “Preconceito
é a coisa mais cafona que existe”
Cantora também comentou como surgiu a ideia do novo DVD.
"Eu aproveitei essa data no Circo, que é um palco tão significativo, para
gravar. Juntou a fome com a vontade de comer"
Com
o pé na estrada e mil horizontes! Apesar de ter acabado de lançar o disco
“Delírio”, a cantora Roberta Sá aproveitou sua passagem
pelo icônico palco do Circo Voador, na urbe carioca, para registrar
aquilo que será o seu próximo DVD. Em uma noite iluminada pela lua cheia,
a casa estava lotada para acompanhar a estreia do show da artista, que
volta a flertar fortemente com o micróbio do samba. Após uma apresentação
corretíssima e com a participação luxuosa de Martinho da Vila e
Moreno Veloso, Roberta falou com exclusividade ao HT sobre o
privilégio de estar no palco do Circo em um momento tão delicado para o estado
do Rio de Janeiro.

“Eu
comecei a me envolver com a música do Rio vindo muito para a Lapa. Gravar um
DVD ao vivo aqui é uma coisa muito simbólica, ainda mais em momento difícil da
cidade. Eu queria gravar aqui, com as pessoas daqui. Eu nasci em Natal, mas sou
praticamente uma carioca. Eu amo essa cidade que me deu tanta coisa”, comentou.
“Aqui no Circo a gente tem o público muito pertinho do artista e era exatamente
isso que eu queria. É um palco muito democrático da cena carioca. Eu sempre
gravo um DVD pra ter um registro da minha história. Quando eu vejo o meu DVD de
2009 (Pra Se Ter Alegria), por exemplo, eu olho para trás e vejo
que aquela mulher já não existe mais, mas é ótimo observar isso”, avaliou a
cantora potiguar.
Uma
curiosidade sobre o espetáculo: o show estava programado para ser apenas uma
transmissão ao vivo para o canal BIS, da Globosat, mas se
tornou um registro oficial para a discografia da cantora, que é uma das
principais vozes da nova geração da MPB. “O trabalho ainda não tem nome
nem data de lançamento, porque a gente decidiu gravar essa semana”, contou ela,
aos risos. “Seria só uma exibição, mas como eu conheço e confio em toda a
equipe do BIS, eu pensei: ‘gravar um DVD seria chamar essa gente toda de novo’.
Então, eu aproveitei essa data no Circo Voador, que é um palco tão
significativo, para gravar. Juntou a fome com a vontade de comer” declarou.
Cantora gravou seu segundo DVD, no palco do Circo Voador (Foto: Leonardo Rocha)
Durante
todo o show, o público se manteve encantado com a afinação e presença de palco
da artista, que mesclou músicas novas como “Me erra”, “Feito
Carnaval” e “Delírio”, com outras canções já carimbadas
do público como “Mais Alguém”, “Ah, Se Vou” e
“Cicatrizes”. Todas entoadas na voz dos fãs da cantora. A participação
de Matinho da Vida foi um dos pontos altos da noite. Com seu carisma
característico, o cantor ganhou a platéia ao dividir a canção “Disritmia”,
meio que de improviso, com Roberta.
A
volta ao estúdio, três anos depois do lançamento de “Segunda Pele”
(2012), trouxe energias renovadas. Para levar esse clima para o palco, Roberta
estará acompanhada dos músicos que participaram das gravações: Alberto Continentino
(baixo), Paulino Dias e Marcos Suzano (percussão), Pedro
Franco (bandolim e cavaquinho) e Rodrigo Campello (arranjo e
violões), este também o produtor musical de “Delírio”. “Nesse
disco, tive vontade de voltar para um lugar que chamo de casa. O ‘Segunda Pele’
era completamente pop, só tinha um samba. Nos últimos três anos, muita coisa
mudou na minha vida. Eu precisava desse momento, que é como um recomeço.
‘Delírio’ é um álbum de samba, mas não tradicional. Tem um perfume de outros
mares também, um pouco de Cabo Verde, em ‘Me Erra’, por exemplo. Gosto muito de
trazer o regional para uma linguagem contemporânea”, contou Roberta, que segue
turnê para Londres, Amsterdã, Paris e Lisboa.
Roberta Sá segue turnê para a Europa (Foto:
Leonardo Rocha)
“Meu
coração está cheio de alegria. Nós vamos para onde a música me levar. Eu não
quero viver isso, não só viver disso. A música é meu oásis e meu paraíso”,
ressaltou ela, que avaliou as diferenças de se cantar em terras brasileiras e
no exterior. “O que eu tenho sentido é que, no Brasil, é mais difícil fazer um
show em que as pessoas precisem fazer silêncio, prestar atenção. Lá fora o
público assiste mais, é uma coisa mais solene – não é só festa, é uma relação
diferente com a música. Claro que é importante fazer festa, dançar – eu adoro
esse tipo de show. Mas acho que existem momentos em que a música precisa ser
mais ouvida, mais sentida. Eu adoro a linguagem de show-baile, até porque sou
sambista, mas acho que é necessário ter um pouco de tudo: é como a nossa alma,
nossos sentimentos; com alegria, dor, tristeza, perda. Achar beleza em tudo
isso é viver, afinal de contas”, comentou.
Aos
35 anos e 12 de carreira, Roberta Sá acredita que, apesar do samba ser um
ambiente dominado por homens, não sentiu resistência ao chegar de mansinho
das rodas de bambas. “Aos pouquinhos as coisas vão chegado a um lugar onde elas
devem estar. A importância da mulher no samba é muito grande, a gente tem
personagens como Teresa Cristina, Dona Ivone Lara, Jovelina
Pérola Negra e Clara Nunes, por exemplo, que movimentam uma cidade e
levam a cultura de um país para o mundo. O Samba faz parte do DNA brasileiro”,
comentou ela, que ainda ressaltou a importância do movimento feminista em um
país. “Eu sou super a favor e acho que as mulheres têm que lutar mesmo por seus
direitos. A mulher tem que ganhar igual ao homem. A mulher engravida e não pode
ser um problema para a sua carreira profissional. Ela tem o direito de
amamentar o seu filho, sabe? Ou se ela não quer ter filho também é uma questão
dela. As mulheres precisam ser livres. É preciso que a gente lembre que somos
todos capazes de fazer as mesmas coisas”, avaliou ela, que também falou sobre
preconceito. “Acho que preconceito é limitar uma pessoa só por ser mulher, ou
pela sexualidade, pela cor, pela religião, é uma coisa muito antiga e cafona.
Preconceito é muito cafona. É a coisa mais cafona que existe na vida. Você que
ser chique? Não seja preconceituoso”.
Roberta Sá e Martinho da Vida (Foto:
Reprodução/Instagram)
Depois
de muitas manifestações da classe artística contra o governo do presidente
interino, Michel Temer, e a queda do Ministério da Cultura, a
pasta foi recriada sob o comando de Marcelo Calero. Questionada
sobre a polêmica, Roberta foi taxativa: “Eu acho muito importante o que MinC
exista! A gente está vivendo um momento muito delicado no país, e acho muito
delicado dar qualquer declaração. Estou vendo um guerra entre as pessoas muito
grande, uma divisão e muita agressividade. Eu tomo muito cuidado para falar
disso, mas acho que foi importante, sim. A cultura é um pilar de sustentação
muito importante para esse país. A cultura alimenta as pessoas de uma outra
maneira. Traz alegria, traz paz, questionamento, união. Ela junta uma cidade.
Inclusive, eu acho que deveríamos ter mais essa troca da música da comunidade
chegar na Zona Sul e vice e versa. Ao contrário do que as pessoas pensam, a
gente faz o nosso trabalho com muita dificuldade, com muita falta de dinheiro.
É muito difícil viver da arte”, ressaltou.
No
entanto, para ela, cantar o amor tem o caráter de levar uma mensagem positiva
em um momento tão complexo do Brasil. “Neste momento que estamos passando no
país, lembrar que o amor existe é uma coisa positiva. O país está partido em
dois em um ódio coletivo. A conexão com o amor é uma coisa muito simples e até
parece um pouco ingênuo falar sobre isso, mas me acalma cantar esse repertório.
Se eu puder fazer o mesmo por alguém, já estou fazendo a minha parte”,
finalizou a cantora.
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