+ uma merda que saiu da minha boca
Criei, anos atrás, o humorado Troféu Frango para premiar bizarrices em geral – quem é leitor deste blog já está acostumado com ele. Hoje, o Frango vai para Edson Arantes do Nascimento, Pelé:
Pelé é
como aquele tio que só fala groselha na ceia de Natal. Todo mundo acha
engraçado, mas ninguém leva muito a sério. Contudo, há limites para tudo.
Após
ser questionado sobre a morte de mais um operário nas obras do Itaquerão, em
março, ele afirmou: ”Isso é
normal, pode acontecer, mas a minha maior preocupação é quanto à estrutura, os
aeroportos, porque no Brasil sempre dá-se um jeitinho”. Deacordo com matéria de Bruno Thadeu,
do UOL, ”voltei recentemente para o Brasil e o aeroporto está
um caos. Essa é minha preocupação.”
Particularmente acho que mortes são piores que
atrasos em obras de aeroportos. Mas todo mundo tem sua
prioridade.
Particularmente
acho que mortes são piores que atrasos em
obras de aeroportos. Mas todo mundo tem sua prioridade.
De
certa forma, os piores problemas na maior parte das obras de estádios e
aeroportos têm o mesmo DNA: a terceirização
tresloucada que torna a dignidade responsabilidade de ninguém. Mais ou menos
assim: Um consórcio contrata o Tio Patinhas para tocar um serviço, que
subcontrata a Maga Patalógica, que subcontrata o Donald, que deixa tudo na mão
de três pequenas empreiteiras do Zezinho, do Huguinho e do Luizinho. Às vezes,
o Zezinho não tem as mínimas condições de
assumir turmas de trabalhadores, mas toca o barco mesmo assim. Aí, sob pressão
de prazo e custos, aparecem bizarrices. Depois, quando tudo acontece, Donald,
Patalógica, Tio Patinhas e o consórcio dizem que o problema não é com eles. E
aí, ninguém quer pagar o pato – literalmente. Ficam os trabalhadores a ver navios, como Patetas.
Em São
Paulo, já foram três mortos no estádio da Copa e 111 trabalhadores resgatados
do trabalho análogo ao de escravo na ampliação do aeroporto internacional.
Quando
alguém passa desta para a melhor salpicado de sangue e cimento, temos um
comportamento bizarro, de crítica quase que envergonhada. A reflexão não pode
durar muito porque, afinal de contas, a vida segue. Comprei meu apartamento e
ele deve ser entregue, o estádio do meu time tem que ficar pronto, a estrada
deve ser asfaltada e o metrô entregue, preciso de energia para a minha
indústria e este ano tem eleição. Alguém deve arcar com essas demandas e com a
falta de recursos para tanto. Então, que se tome mais uma cachacinha, encha a
boca de arroz com feijão e pau na máquina. Amanhã todo mundo já esqueceu o
corpo estendido no chão.
Logo
após marcar seu milésimo gol no dia 19 de novembro de 1969, Pelé disse ”vamos proteger as criancinhas necessitadas”. (Assim, senhor “pele”?) *
Mas não
explicou que, ao completar 18, elas que se danem. Pois o que importa, de
verdade, é que não tenhamos aeroportos com cara de rodoviária na Copa.
Fonte: Blog do Sakamoto
NOTAS
As palavras na cor vermelha
são do texto, mas os destaques são deste blogueiro.
(Assim, senhor “pele”?) * texto deste blogueiro.
Nenhum comentário:
Postar um comentário