Na semana passada o portal terra me fez uma breve entrevista sobre o golpe de 64. Acho que não gostaram, porque não publicaram. Aqui vai:
Onde você estava e o que fazia no dia 1º de abril de 1964?
Eu morava com meus pais em Belo Horizonte em um prédio de quatro andares, no bairro do Sion. Das janelas da frente víamos o Colégio Sion, onde estudava (ou estudara) uma jovem de cabelos negros chamada Dilma Vana Rousseff. Das janelas dos quartos era possível ver, a duas ou três centenas de metros, a Avenida Nossa Senhora do Carmo, que na verdade era o começo da BR-3, rodovia federal que ligava a capital mineira ao Rio de Janeiro, passando por Juiz de Fora. Na madrugada de 1º de abril fui despertado por um barulho forte, ritmado, vindo da rodovia. Abri a janela e vi uma coluna de tanques do 12º Regimento de Infantaria, sediado em Belo Horizonte, avançando rumo a Juiz de Fora para aderir ao levante militar liderado pelo general Olímpio Mourão Filho. Adolescente alienado, fechei a janela e voltei a dormir. Só um ano depois do golpe é que percebi o inferno em que estávamos metidos.
Que lição você acha que o Brasil deve tirar do período ditatorial?
Essas duas décadas negras nos ensinaram que a liberdade é um valor universal, por cuja defesa devemos dar tudo, até a vida, se necessário. A ditadura me pegou quando eu tinha 17 anos e só me largou aos 39. Não quero isso para minha filha e para as minhas netas.
Na sua opinião, que marcas o período militar deixou no jornalismo brasileiro?
A pior de todas, a da censura. Convivi com a censura em suas diversas fases: censor na redação, censor nas oficinas, censor que ficava em casa, e o jornal (ou revista) tinha que enviar os originais para que ele lesse o que podia ou não podia ser publicado. E até com a exigência inacreditável de que os originais fossem enviados a Brasília (fisicamente, porque ainda não existia internet), onde eram lidos, censurados e devolvidos a São Paulo. Peguei a censura desde a noite em que ela foi implantada, 13 de dezembro de 1968, quando eu trabalhava no Jornal da Tarde, até o dia 2 de junho de 1976, quando os censores foram retirados do último veículo da grande imprensa, a revista Veja, onde eu era editor assistente. A censura não visava atingir nenhum jornalista. Seu objetivo era impedir a sociedade de conhecer os crimes e desmandos que a ditadura cometia.
Hoje a censura ainda é uma realidade no Brasil ou apenas um fantasma?
É preciso ter clara uma questão: em qualquer lugar do planeta – de Washington a Beijing, de Paris a Havana - a imprensa está a serviço dos interesses e da ideologia de quem paga as contas no fim do mês. Há duas frases do magnata Assis Chateaubriand que resumem isso muito bem. A primeira foi quando o presidente Eurico Dutra reclamou de uma reportagem publicada no Jornal do Comércio do Rio, um dos veículos do império Associado. Chatô respondeu ao mensageiro da insatisfação: “Diga ao seu Dutra que para dar palpite nos meus jornais tem que se responsabilizar pela folha de pagamento, no fim do mês. Se ele quiser, eu topo”. A segunda foi quando o jornalista David Nasser, a principal estrela da revista O Cruzeiro, queixou-se com o patrão de que um artigo seu tinha sido cortado por ordem dele. Chatô devolveu: “Seu David, se o senhor quer defender a sua opinião, compre uma revista. Na minha revista o senhor defende a minha opinião”. Continua assim e assim permanecerá per omnia secula seculorum...
50 anos depois, reeditaram a "Marcha da Família com Deus e pela Liberdade", marcha que deu apoio ao governo militar. O que você acha dessa atitude de querer reviver aqueles anos de terror?
Parece que ali havia dois grupos: o de gente muito nova, que não faz a mais pálida ideia do que seja uma ditadura militar, e o de gente mais velha, que estava lá sabendo o que é uma ditadura militar. O fracasso da marcha mostrou que algum grau de consciência a população está adquirindo... Inschallah!
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