O ponto nevrálgico do ódio a José Dirceu

Querido
Jornalista Paulo Nogueira
Permite que
elogie vários valores que percebo no querido amigo. Apesar de nunca nos
falarmos pessoalmente te admiro enormemente.
Destacaria
como importante, em primeiro lugar, tua sabedoria. Escreves muito sobre
filosofia e acolhes em teu prestigiado site boa quantidade de artigos sobre
essa maravilhosa fonte de saber.
Sabedoria é
a arte de quem consegue abrir-se permanente e dinamicamente ao processo
existencial de aprender com o mundo teórico e com a vida prática. Sábio é o ser
humano que articula a teoria com a vida e a vida com a teoria, uma fertilizando
a outra. Nessa dinâmica é impossível dogmatizar e amarrar os pés em alguma
barranca e não mais andar, como um asno empacado.
Nota-se
perfeitamente que os conservadores ou os que se fixam nas trevas do senso
comum, tão manipulado pelo pior que emana da classe dominante, também não
conseguem – não conseguem mesmo, por mais que algo neles grite – ouvir, ver,
cheirar, degustar e apalpar possibilidades de verdade no mundo fora de suas
mentes tão brutalmente entrevadas pela burrice mesquinha, causada pelas
marretadas estonteantes dos golpes e mentiras dadas pela direita.
Tu és um sábio, meu
querido Jornalista (com J maiúsculo). És culto, estudioso
e sabes muito bem “explorar” tuas passagens pela imprensa grande – Revista Veja
e Rede Globo, por exemplo – onde trabalhaste e aprendeste muito com os
movimentos safados do pessoal armador de golpes à democracia, para nos contar
como eles agem, acentue-se o caso dos malandros da família Marinho, eternamente
sujos e comprometidos com a ditadura militar e com o rasteiro neoliberalismo
entreguista e vendilhão de Fernando Henrique Cardoso.
Num dos teus
artigos contas das reuniões da formação de pauta na TV Globo e que sentavas nas
proximidades de uma janela, distante de miolo do furacão de mentiras que esse
poderoso órgão de imprensa despeja sobre o povo brasileiro.
Noutras
palavras, meu irmão, não te vendeste aos
inimigos do Brasil, da verdade, da justiça e da democracia. Não imaginas como é
bom saber disso. Isso contrasta radicalmente com muitos covardes com quem
convivemos diariamente, sempre dispostos a vender suas mães em troca do vil
metal.
Destaco
também, graças à tua sabedoria, a humildade que te guia. Percebo
esse valor do teu caráter nas matérias que constróis seguidamente em torno das
gritantes vítimas desta apodrecida classe dominante brasileira. Quem acompanha
teu site e teu trabalho certamente entende a que me refiro. Sabes levantar tua
voz – ou usar teu computador – na identificação das injustiças e dos que a
praticam.
Porém, sinto
enorme alegria quando comento teus artigos ou outros trabalhos publicados em
teu site. Mais, sempre deixas uma rápida palavra de estímulo e gentil a esse
insignificante lutador de uma sociedade mais justa. Certamente não imaginas
também o que tal atitude significa. Vivemos num digladiante mundo de
competidores predatórios, rancorosos e vaidosos, onde não se permite ao outro
crescer. Incrível, seguidamente escrevo para blogs e sites até de grandes
estrelas de esquerda que simplesmente boicotam ou censuram meus comentários. Decepciono-me
amargamente com isso.
O meu amigo,
e teu colega, Ciro Fabres Netho, que trabalha num jornal da RBS em Caxias do
Sul, sempre me disse que os jornalistas padecem do visceral mal da vaidade.
Ciro me contou que os tais se acham tão donos da verdade que chegam ao ponto de
substituir os fatos reais por suas próprias opiniões, que eles chamam de
jornalismo profissional. Ou como afirmou teu outro colega, o grande Franklin
Martins: “a imprensa no Brasil é independente, tão independente que independe
dos fatos. Os fatos são uma coisa e ela diz o que quer.”
Tu, querido
Paulo, buscas os fatos e com eles casas e os amas, como uma das fontes da
verdade e da sabedoria. Viajas, contas com colegas teus e profissionais de
outras áreas para compreenderes e comunicares os fatos. Por isso quando te
sentiste caluniado e perseguido pela Globo ameaçaste fechar teu maravilhoso
site Diário do Centro do Mundo, um dos mais
importantes órgãos da mídia online. Senti muita tristeza com essa ameaça por
saber-me privado de te ler. Felizmente foste sensível aos teus amigos que se
mobilizaram em todo o País para te dar força e ajudar nas despesas com custas
advocatícias para enfrentares o monstro de pés de barro.
Pois bem,
Paulo, mais uma vez olhas encantado, ainda que angustiado, para os fatos, não
obscurecido pela mídia sem vergonha por ser serviçal da direita e agressiva à
verdade e à justiça, mas com a sensibilidade do sábio que busca na história e
na realidade o que esta fala de si mesma.
Posto abaixo
o artigo no qual analisas a opção de José Dirceu, a mesma que move o ódio da mídia
e da direita brasileiras contra ele e contra nosso povo
trabalhador.
O que
escreves toca profundamente o meu espírito, graças à verdade sábia do núcleo
bem fundamentado de teu texto. Já escrevi aqui sobre a traição de pessoas
militantes da esquerda que se bandearam para a direita em busca de dinheiro,
poder e prestígio. Esses são covardes, mesquinhos, imorais e escumalhas do
universo, como dizia Pascal. Suponho até que a direita sobrevive muito dessa
mão de obra dessas serpentes venenosas. Elas se espalham por toda a parte,
desde os mais altos escalões da pirâmide capitalista atrasada e entreguista até
aqui no vale onde labutamos arduamente.
Mas o mundo
mudará para os caminhos da justiça graças aos 1% pelos quais
opta José Dirceu, hoje presidiário político dos 99% de
aproveitadores, que se entendem donos do Brasil e do universo, com o sistema
solar a seu serviço.
Abraços
críticos e fraternos na luta pela justiça, pela paz e pela verdade.
Dom
Orvandil: bispo cabano, farrapo e republicano.
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Por que a direita odeia tanto Zé Dirceu?
Postado em 15 nov 2013
Dirceu
Por que Zé Dirceu é tão odiado pela direita?
Ele é ainda mais odiado que Lula, o que não é pouco.
Tenho minha tese.
De Lula era esperado, mesmo, que estivesse do lado oposto ao da direita.
Operário, nordestino, nove dedos, pouca oportunidade de estudar.
Seria uma aberração Lula se alinhar ao 1%, para usar a grande terminologia do movimento Ocupe Wall Street.
Mas Dirceu não.
Ele tinha todos os atributos para figurar no 1% que fez o país ser o que é, um dos
campeões mundiais de iniquidade, a terra das poucas mansões e das tantas favelas.
Articulado, inteligente, dado a leituras. Bem apessoado. Na ótica do 1%, pessoas como Zé Dirceu são catalogadas
como traidoras, e devem ser punidas exemplarmente para que outras do mesmo
gênero, ou se preferirem da mesma classe, não sigam seu exemplo.
Na França revolucionária, a aristocracia entendia que os Marats, os
Desmoullins, os Héberts pregassem a morte do velho regime, mas jamais
conseguiu compreender o que levou o Duque de Orleans a também lutar pela
liberdade, pela igualdade e pela fraternidade.
O 1% brasileiro, na história recente, soube
sempre atrair equivalentes a Dirceu. Carlos Lacerda, por exemplo, era de esquerda na juventude.
Depois, se tornou um direitista fanático. Segundo relatos de quem o
conheceu, ele se cansou da vida dura reservada aos esquerdistas em seus dias e
foi para onde o dinheiro estava.
O 1% recompensa bem. Nos dias de hoje, se
você defende os privilégios, acaba falando na CBN, aparecendo em entrevistas na
Globonews, tendo coluna em jornais e revistas, dando palestras muito bem pagas.
E, com a carteira abastecida, ainda pode posar de ‘corajoso’ defensor da
‘imprensa livre’.
Dirceu não fez a trajetória de Lacerda. Não abjurou suas crenças.
E então virou o demônio.
Quem o demonizou foram exatamente aqueles que o adulariam se ele se
vendesse. A imagem que a mídia construiu de Zé Dirceu concentrou num único
homem todos os defeitos possíveis: vaidoso, arrogante, corrupto, inescrupuloso,
maquiavélico.
Um monstro, enfim.
Pegou essa imagem? Menos do que o 1%
gostaria, provavelmente. Quem não se lembra de Serra, num debate com Haddad,
repetidas vezes tentar encurralar seu oponente com a acusação de que era “amigo
do Dirceu”?
Haddad reconheceu tranquilamente a amizade, e quem terminou eleito não
foi Serra.
Na mídia tradicional, a campanha contra Dirceu desconhece limites
jornalísticos e, pior que isso, legais.
Um repórter tenta invadir criminosamente o quarto do hotel que ele ocupa,
e ainda assim é Dirceu que aparece como o vilão do caso.
Quem conhece o Dirceu real, com seus defeitos e virtudes, grandezas e
misérias, são aqueles poucos de seu círculo
íntimo. Para eles não faz efeito o noticiário que o sataniza. (Caso interesse a
alguém, nunca votei em Dirceu e não o conheço pessoalmente.)
De resto, esse noticiário – ou propaganda – não é feito para eles, mas
para os chamados ‘inocentes úteis’, aqueles que em outras épocas acreditaram no
“Mar de Lama” de Getúlio Vargas ou no “perigo comunista” representado por João Goulart.
É a imagem demoníaca de Dirceu construída pela mídia que, nestes dias, é
utilizada pela maioria dos juízes do Supremo no julgamento do Mensalão.
Não chega a ser surpresa. A justiça brasileira tradicionalmente foi uma
extensão do 1%.
Estudiosos já notaram a diferença da atuação da justiça no Brasil e na
Argentina na época das duas ditaduras militares.
No Brasil, a justiça foi servil aos militares. Na Argentina, a justiça
desafiou frequentemente os militares ao declarar inocentes muitos acusados de “subversivos”.
Isso acabou levando os militares argentinos a simplesmente matar milhares
de opositores sem que fossem julgados.
Fundamentalmente, Dirceu paga o preço de sua opção teimosa pelo 99%.
Mas quem vai julgá-lo perante a história não é o 1%, representado por uma
mídia que defende seus próprios privilégios e finge se bater pelo interesse
público. E nem uma corte em cuja história a tradição é o alinhamento
alegremente pomposo com o 1%.
Ele deve saber disso, e imagino que isso o conforte em horas duras como
esta.
Sobre o Autor
O jornalista Paulo Nogueira, baseado em Londres, é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.
ATENÇÃO: as palavras em destaques e na cor vermelha são deste BLOGUEIRO.
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