sábado, 3 de maio de 2014

Retrato fiel de uma EXCEPCIONAL reportagem ! ! !

Movimento tenta fechar 

shopping, mas recua após 

negociar entrada

Por: MAURÍCIO GONÇALVES - REPÓRTER

Estava tudo sob controle. Enquanto tinha que segurar a bandeira, gritar palavras de protesto e ouvir os discursos no carro de som, do lado de fora do shopping de Mangabeiras, a sem-teto Eliane Maria sabia o que fazer. Mas quando a manifestação pelo Dia 1º de Maio conseguiu entrar, o coração da trabalhadora, que nunca tinha ido a um centro de compras, começou a bater mais forte. O grande desafio era subir a escada rolante.

O “rolezinho” organizado pela Central Única dos Trabalhadores (CUT) com cerca de 60 sem-terra e sem-teto no Maceió Shopping, ontem pela manhã, foi marcado por “sustinhos” de consumidores em compras e momentos inéditos vividos por manifestantes como a Eliane Maria. Ao chegarem na escada rolante, alguns “companheiros” olham fixo para os degraus, marcam distância, dão um pulo, esboçam um sorriso vitorioso e relaxam por alguns instantes, mas só até chegar a hora de saltar para fora, do lado de cima.

DESAFIO
Eliane tentou fazer o mesmo. Agarrou nas mãos das duas filhas, calculou a distância, respirou fundo e...desistiu, deu um passo para trás. Uma pequena aglomeração de sem-teto já se formava no acesso à escada, as risadinhas eram inevitáveis e Eliane tentava acalmar as filhas e a si própria. “Não se afobem, não se afobem”. Tentou criar coragem mais uma vez, e nada. Na terceira tentativa, alguém que estava atrás dela deu um empurrãozinho para ajudá-la. E lá vem Eliane, toda orgulhosa com o feito, tentando olhar para os lados durante a subida, mas com a cabeça abaixada e a mira da pupila fixa nos degraus móveis.
“Ôpa! Chegamos. Ainda bem!”, suspirou a integrante do Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLP) assim que desembarcou de tal escada. “Eu tive medo desse negócio. Bateu forte o coração, cheguei até a ficar zonza. Foi a primeira vez na vida que eu andei numa escada rolante”, resumiu.

ESPANTO
Ao caminhar entre as vitrines, Eliane e o grupo de trabalhadores ficaram atônitos com a beleza e a riqueza dos ambientes. No choque entre o capital e o trabalho, o brilho nos olhos excluídos revelava um fascínio acanhado por algo que está muito longe da realidade dos sem-teto e sem-terra. Crianças e adolescentes que vieram de acampamentos rurais de São Luís do Quitunde e Barra de Santo Antônio eram os mais surpresos com a ostentação e o luxo. “Meu Deus, como é lindo! Eu nunca tinha visto nada tão bonito. É maior do que na televisão”, comentava uma garota para a amiguinha ao lado.
Por outro lado, vendedores e clientes da classe média ficaram assustados com a passagem em massa de cerca de 60 pobres pelos corredores do shopping. Alguns boatos logo se espalharam. “Tem mais de mil manifestantes no Posto 7 e eles todos vão invadir aqui hoje”, dizia o funcionário de um magazine para as vendedoras de uma loja de grife.
O empresário Marcone Sibaldo fazia compras com a esposa, três filhas e duas sobrinhas, quando viu a entrada dos manifestantes, cercados por seguranças do shopping, policiais militares e civis. “Eu acho até justa a reivindicação para o shopping fechar no Dia do Trabalhador, mas foi uma baita susto que a gente tomou”. Já o aposentado Rubens Ferreira se mostrou totalmente contrário: “Acho que o Dia do Trabalho devia ser comemorado com festa, e não com baderna”.
O “rolezinho” aconteceu por volta das 11hs e foi tranquilo, mas houve momentos de tensão quando os trabalhadores começaram a se mobilizar nos portões do shopping, a partir das 09hs. “Nós fizemos um acordo que o comércio fecharia no dia de hoje, inclusive com os empregadores do shopping Iguatemi (hoje Maceió Shopping), que insistiram em abrir e estimular os outros shoppings a abrir também”, protestava o diretor da CUT Izac Jackson.

O objetivo era impedir a abertura do shopping.

Extraído do Jornal Gazeta de Alagoas de ontem, 02, página Política 5 A. 

NOTA: um belo artigo de um jornalista
humano e sensível de primeira grandeza.

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