Movimento
tenta fechar
shopping, mas recua após
negociar entrada
Por: MAURÍCIO GONÇALVES - REPÓRTER
Estava tudo sob controle. Enquanto
tinha que segurar a bandeira, gritar palavras de protesto e ouvir os discursos
no carro de som, do lado de fora do shopping de Mangabeiras, a sem-teto Eliane
Maria sabia o que fazer. Mas quando a manifestação pelo Dia 1º de Maio
conseguiu entrar, o coração da trabalhadora, que nunca tinha ido a um centro de
compras, começou a bater mais forte. O grande desafio era subir a escada
rolante.
O “rolezinho” organizado pela Central Única dos Trabalhadores (CUT) com cerca de 60 sem-terra e sem-teto no Maceió Shopping, ontem pela manhã, foi marcado por “sustinhos” de consumidores em compras e momentos inéditos vividos por manifestantes como a Eliane Maria. Ao chegarem na escada rolante, alguns “companheiros” olham fixo para os degraus, marcam distância, dão um pulo, esboçam um sorriso vitorioso e relaxam por alguns instantes, mas só até chegar a hora de saltar para fora, do lado de cima.
O “rolezinho” organizado pela Central Única dos Trabalhadores (CUT) com cerca de 60 sem-terra e sem-teto no Maceió Shopping, ontem pela manhã, foi marcado por “sustinhos” de consumidores em compras e momentos inéditos vividos por manifestantes como a Eliane Maria. Ao chegarem na escada rolante, alguns “companheiros” olham fixo para os degraus, marcam distância, dão um pulo, esboçam um sorriso vitorioso e relaxam por alguns instantes, mas só até chegar a hora de saltar para fora, do lado de cima.
DESAFIO
Eliane tentou fazer o mesmo. Agarrou
nas mãos das duas filhas, calculou a distância, respirou fundo e...desistiu,
deu um passo para trás. Uma pequena aglomeração de sem-teto já se formava no
acesso à escada, as risadinhas eram inevitáveis e Eliane tentava acalmar as
filhas e a si própria. “Não se afobem, não se afobem”. Tentou criar coragem
mais uma vez, e nada. Na terceira tentativa, alguém que estava atrás dela deu
um empurrãozinho para ajudá-la. E lá vem Eliane, toda orgulhosa com o feito,
tentando olhar para os lados durante a subida, mas com a cabeça abaixada e a
mira da pupila fixa nos degraus móveis.
“Ôpa! Chegamos. Ainda bem!”, suspirou a
integrante do Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLP) assim que
desembarcou de tal escada. “Eu tive medo desse negócio. Bateu forte o coração,
cheguei até a ficar zonza. Foi a primeira vez na vida que eu andei numa escada
rolante”, resumiu.
ESPANTO
Ao caminhar entre as vitrines, Eliane e
o grupo de trabalhadores ficaram atônitos com a beleza e a riqueza dos
ambientes. No choque entre o capital e o trabalho, o brilho nos olhos excluídos
revelava um fascínio acanhado por algo que está muito longe da realidade dos
sem-teto e sem-terra. Crianças e adolescentes que vieram de acampamentos rurais
de São Luís do Quitunde e Barra de Santo Antônio eram os mais surpresos com a
ostentação e o luxo. “Meu Deus, como é lindo! Eu nunca tinha visto nada tão
bonito. É maior do que na televisão”, comentava uma garota para a amiguinha ao
lado.
Por outro lado, vendedores e clientes
da classe média ficaram assustados com a passagem em massa de cerca de 60
pobres pelos corredores do shopping. Alguns boatos logo se espalharam. “Tem
mais de mil manifestantes no Posto 7 e eles todos vão invadir aqui hoje”, dizia
o funcionário de um magazine para as vendedoras de uma loja de grife.
O empresário Marcone Sibaldo fazia compras
com a esposa, três filhas e duas sobrinhas, quando viu a entrada dos
manifestantes, cercados por seguranças do shopping, policiais militares e
civis. “Eu acho até justa a reivindicação para o shopping fechar no Dia do
Trabalhador, mas foi uma baita susto que a gente tomou”. Já o aposentado Rubens
Ferreira se mostrou totalmente contrário: “Acho que o Dia do Trabalho devia ser
comemorado com festa, e não com baderna”.
O “rolezinho” aconteceu por volta das
11hs e foi tranquilo, mas houve momentos de tensão quando os trabalhadores
começaram a se mobilizar nos portões do shopping, a partir das 09hs. “Nós
fizemos um acordo que o comércio fecharia no dia de hoje, inclusive com os
empregadores do shopping Iguatemi (hoje Maceió Shopping), que insistiram em
abrir e estimular os outros shoppings a abrir também”, protestava o diretor da
CUT Izac Jackson.
O objetivo era impedir a abertura do
shopping.
Extraído do Jornal Gazeta de Alagoas de ontem, 02, página Política 5 A.
NOTA: um
belo artigo de um jornalista
humano e
sensível de primeira grandeza.
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