Para
que serve a filosofia na vida prática
Marco Aurélio, o imperador filósofo.
A filosofia
existe para que as pessoas possam viver melhor. Sofrer menos. Lidar melhor com
as adversidades. Enfrentar serenamente o perpétuo vai-e-vem de
elevações e quedas, para citar uma grande frase de um filósofo da
Antiguidade. A missão essencial da filosofia é tornar viável a busca da
felicidade.
Todos os grandes pensadores sublinharam
esse ponto. A filosofia que não é útil na vida prática pode ser jogada no lixo.
Alguém definiu os filósofos como os amigos eternos da humanidade. Nas noites
frias e escuras que enfrentamos no correr dos longos dias, eles podem iluminar
e aquecer. A filosofia apóia e consola.
Um aristocrata romano chamado Boécio
(480-524) era rico, influente, poderoso. Era dono de uma inteligência colossal:
traduziu para o latim toda a obra de Aristóteles e Platão. Tudo ia bem. Até o
dia em que foi acusado de traição pelo imperador e condenado à morte. Foi
torturado. Recebeu a marca dos condenados à morte de então: a letra grega Theta
queimada na carne.
Boécio recorreu à filosofia, em que era
mestre, para enfrentar o suplício. Entre a sentença e a morte, escreveu em
condições precárias um livro que se tornaria um clássico da literatura
ocidental: A Consolação da Filosofia. Tudo de que ele dispunha, para escrevê-lo,
eram pequenas tábuas e estiletes. Isso lhe foi passado, para dentro da cela,
por amigos. “A felicidade pode entrar em toda parte se suportarmos tudo sem
queixas”, escreveu ele.
A filosofia
consola, mostrou em situação extrema Boécio. E ensina. E inspira. Sim, os
filósofos são os eternos amigos da humanidade. Considere Demócrito, pensador
grego do século 5 a.C. Ele escreveu um livro chamado Sobre o Prazer.
Primeira frase do livro: “Ocupe-se de pouco para ser feliz”. Gênio. Gênio
total. A palavra grega para tranqüilidade da alma éeuthymia.
A recomendação básica de Demócrito, sob
diferentes enunciados, é encontrada em muitos outros filósofos. Sobrecarregar a
agenda equivale a sobrecarregar o espírito, e traz inevitavelmente angústia.
Ninguém que tenha muitas tarefas pode ser feliz.
Um sábio da Antiguidade não abria
nenhuma correspondência depois das quatro horas da tarde. Era uma forma de não
encontrar mais nenhum motivo de inquietação no resto do dia, que ele dedicava a
recuperar a calma que perdera ao entregar-se ao seu trabalho. Olhemos para nós,
e nos veremos com freqüência abrindo mensagens no computador alta noite, e não
raro nos perturbando por seu conteúdo. O único resultado disso é uma noite mal
dormida.
Fazemos
muitas coisas desnecessárias. Coloque num papel as atividades de um dia. Depois
veja o que realmente era preciso fazer e o que não era. A lista das
inutilidades suplanta quase sempre a das ações imperiosas. O imperador filósofo
romano Marco Aurélio, do começo da Era Cristã, louvou a frase de Demócrito em
suas clássicas Meditações. Acrescentou que devemos evitar não
apenas os gestos inúteis, mas também os pensamentos desnecessários.
Marco Aurélio recomendava o formidável
exercício de conduzir a mente, quando agitada, para pensamentos aquietadores.
Isso conseguido, controlamos a mente, esse cavalo selvagem, em vez de sermos
controlados por ela.
Sêneca escreveu sobre o assunto com
imensa graça e espírito. Sêneca usou as expressões “agitação estéril” e
“preguiça agitada” ao tratar dos atos que nos trazem apenas desassossego. “É
preciso livrar-se da agitação desregrada, à qual se entrega a maioria dos
homens”, escreveu Sêneca. “Eles vagam ao acaso, mendigando ocupações. Suas
saídas absurdas e inúteis lembram as idas e vindas das formigas ao longo das
árvores, quando elas sobem até o alto do tronco e tornam a descer até embaixo,
para nada. Quantas pessoas levam uma existência semelhante, que se chamaria com
justiça de preguiça agitada?”
Agimos como
formigas quase sempre, subindo e descendo sem razão o tronco das árvores, e
pagamos um preço alto por isso: ansiedade, aflição, fadiga física e mental.
Nossa agenda costuma estar repleta. É uma forma de fugir de nós mesmos, como
escreveu sublimemente um poeta romano. Eliminar ao menos algumas das tantas
tarefas inúteis que nos impomos a cada dia é vital para a euthymia da
qual falavam os sábios gregos.
Outro ponto essencial recomendado pelos
filósofos para a vida feliz é aceitar os tropeços. É o principal ensinamento do
filósofo Zenão e seus discípulos. Nascido em 333 a.C. na ilha de Chipre, filho
de pais ricos, Zenão fundou em Atenas uma escola de filosofia que dominou o
mundo culto por séculos e cujos fundamentos influenciaram a doutrina cristã: o
estoicismo.
Tão forte é a filosofia estóica que
“estóico” virou sinônimo de bravura na adversidade. Segundo o mais admirado
dicionário de inglês, o Oxford, estóico é quem se porta com serenidade diante
do revés ou do triunfo. Nem vibra na vitória e nem se deprime na derrota.
Zenão perdeu todo o seu patrimônio num
naufrágio. Seu comentário ao receber a informação: “O destino queria que eu
filosofasse mais desembaraçadamente”. O nome da escola deriva da palavra grega
“stoa”, pórtico. Zenão, alto, magro, o pescoço ligeiramente inclinado, pregava
suas idéias num pórtico erguido pelos atenienses para celebrar a vitória na
guerra sobre os persas.
Esse pórtico era colorido com imagens
de gregos derrotando os bárbaros. Na Atenas de então, era comum discutir filosofia
em locais públicos, mas a escolha do pórtico por Zenão parece carregada de
simbolismo: o triunfo da sabedoria sobre a brutalidade.
O estoicismo defendia uma vida de
acordo com a natureza. Simplicidade no vestuário, na comida, nas palavras, no
estilo de vida. E a aceitação de tudo que possa ocorrer de ruim. Agastar-se
contra as circunstâncias apenas piora o estado de espírito da pessoa: essa a
lógica da aceitação, ou resignação, que viria a ser um dos pilares do
cristianismo.
O lema estóico: abstenha-se e aceite. O
apreço pela vida de acordo com a natureza Zenão a-prendeu com seu mestre em
filosofia, Crates. Crates era da escola cínica. Os cínicos defendiam a
simplicidade tanto quanto os estóicos, e não é difícil entender por que a
posteridade ignorante lhes atribuiu um sentido pejorativo: é que eles eram
extraordinariamente irreverentes. O mais notável filósofo cínico, Diógenes,
certa vez se masturbou em público. Explicou aos que o interpelavam: “Gostaria
de saciar minha fome esfregando o estômago”.
Não sobrou livro nenhum de Zenão.
Atribuem-se a ele frases, das quais uma das melhores diz: “A natureza nos deu
dois ouvidos e apenas uma boca para que ouvíssemos mais e falássemos menos”.
Zenão se matou aos 72 anos.
Para os
estóicos, o suicídio – sem lamúrias, sem queixas – era uma retirada digna e
honrosa quando a pessoa já não encontrasse razões para viver. Sabe-se de sua
morte pelo biógrafo Diógenes Laércio, autor deVida dos Filósofos. Zenão
tropeçou e se machucou, segundo Diógenes Laércio. Em seguida citou um verso de
um autor grego chamado Timóteo: “Eis-me aqui: por que me chamas?”
Nascido escravo e só liberto depois de
adulto, Epitecto foi uma das vozes mais influentes da filosofia da Antiguidade.
Ele viveu nos primórdios da Era Cristã, de 40 a 125. Não escreveu um único
livro. Seu pensamento é conhecido graças a um discípulo, o historiador Arriamo.
Arriamo
teve o cuidado de anotar as idéias de seu mestre, e depois transformá-las em dois
livros,Entretenimentos e Manual. Seu tamanho
intelectual é tal que o imperador filósofo Marco Aurélio escreveu que um dos
acontecimentos capitais de sua vida foi ter tido acesso às obras de Epitecto.
Para ele, o passo básico da vida feliz
é aceitar as coisas como elas são. Revoltar-se contra os fatos não altera os
fatos, e ainda traz uma dose de tormento desnecessária. “Não se deve pedir que
os acontecimentos ocorram como você quer, mas deve-se querê-los como ocorrem:
assim sua vida será feliz”, disse Epitecto. (Séculos depois, o pensador francês
Descartes escreveu uma frase que é como um tributo à escola de Epitecto: “É
mais fácil mudar seus desejos do que mudar a ordem do mundo”.)
Não adianta se agastar contra as
circunstâncias: elas não se importam. Isso se vê nas pequenas coisas da vida.
Você está no meio de um congestionamento? Exasperar-se não vai dissolver os
carros à sua frente. Caiu uma chuva na hora em que você ia jogar tênis com seu
amigo? Amaldiçoar as nuvens não vai secar o piso. Que tal uma seção de cinema
em vez do tênis?
Outro ensinamento seu crucial é que só
devemos nos ocupar efetivamente daquilo que está sob nosso controle. Você cruza
uma manhã com seu chefe no elevador e ele é efusivo. Você ganha o dia. Você o
encontra de novo e ele é frio. Você fica arrasado. Daquela vez ele estava
bem-humorado, daí o cumprimento caloroso, agora não. O estado de espírito de
seu chefe não está sob seu controle. Você não deve nem se entusiasmar com tapas
amáveis que ele dê em suas costas e nem se deprimir com um gesto de frieza.
Você não pode entregar aos outros o comando de seu estado de espírito.
“Não é aquele que lhe diz injúrias quem
ultraja você, mas sim a opinião que você tem dele”, disse Epitecto. Se você
ignora quem o insulta, você lhe tira o poder de chateá-lo, seja no trânsito, na
arquibancada de um estádio de futebol ou numa reunião corporativa.
Não são exatamente os fatos que moldam
nosso estado de espírito, pregou Epitecto, mas sim a maneira como os encaramos.
Um dos desafios perenes da humanidade, e as palavras de Epitecto são uma
lembrança eterna disso, é evitar que nossa opinião sobre as coisas seja tão
ruim como costuma ser. A mente humana parece sempre optar pela infelicidade.
Outra lição essencial dos filósofos é
não se inquietar com o futuro. O sábio vive apenas o dia de hoje. Não planeja
nada. Não se atormenta com o que pode acontecer amanhã. É, numa palavra, um
imprevidente. Eis um conceito comum a quase todas as escolas filosóficas: o
descaso pelo dia seguinte. Mesmo em situações extremas. Um filósofo da
Antiguidade, ao ver o pânico das pessoas com as quais estava num navio que
chacoalhava sob uma tempestade, apontou para um porco impassível. E disse: “Não
é possível que aquele animal seja mais sábio que todos nós”.
O futuro é fonte de inquietação
permanente para a humanidade. Tememos perder o emprego. Tememos não ter
dinheiro para pagar as contas. Tememos ficar doentes. Tememos morrer. O medo do
dia de amanhã impede que se desfrute o dia de hoje. “A imprevidência é uma das
maiores marcas da sabedoria”, escreveu Epicuro. Nascido em Atenas em 341 AC,
Epicuro, como os filósofos cínicos, foi uma vítima da posteridade ignorante.
Pregava e praticava a simplicidade, e no entanto seu nome ficou vinculado à
busca frívola do prazer.
Somos tanto mais serenos quanto menos
pensamos no futuro. Vivemos sob o império dos planos, quer na vida pessoal,
quer na vida profissional, e isso traz muito mais desassossego que realizações.
O mundo neurótico em que arrastamos nossas pernas trêmulas de receios múltiplos
deriva, em grande parte, do foco obsessivo no futuro. Há um sofrimento por
antecipação cuja única função é tornar a vida mais áspera do que já é.
Epicuro, numa sentença frequentemente
citada, disse que nunca é tarde demais e nem cedo demais para filosofar. Para
refletir sobre a arte de viver bem, ele queria dizer. Para buscar a
tranqüilidade da alma, sem a qual mesmo tendo tudo nada temos a não ser medo.
Também nunca é tarde demais e nem cedo demais para lutar contra a presença
descomunal e apavorante do futuro em nossa vida.
O homem sábio cuida do dia de hoje. E
basta.
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