Eunício diz que colegas estão “horrorizados” após conversa com Paulo
Guedes: “Povo de rede social”
Paulo Guedes falou, Eunício
ouviu: "Prensa ninguém vai dar em mim", reagiu o senador
Fotos: Apex Brasil e Edilson Rodrigues / Agência Senado
O presidente do Senado, Eunício Oliveira (MDB-CE), não teve
exatamente uma boa impressão do economista Paulo
Guedes em seu primeiro contato com o "guru econômico" de Jair
Bolsonaro (PSL) já na condição de ministro do próximo governo. O
senador fez uma relato sobre a conversa que teve na última terça-feira (6) com
Paulo, na presença de outros senadores, pouco antes da celebração dos 30 anos da
Constituição Federal, cerimônia que marcou a volta de Bolsonaro ao Congresso
depois das eleições. Dizendo que seus colegas ficaram "horrorizados"
com a postura do economista, Eunício saiu dessa conversa com uma certeza:
"Esse povo que vem aí não é da política; é da rede
social".
Segundo Eunício, Paulo Guedes o pressionou para que pautasse logo,
para aprovação ainda neste ano, da polêmica reforma
da Previdência, proposição que poderia
auxiliar o governo Bolsonaro a equacionar o grave desequilíbrio das contas
públicas. Para tanto, lembrou Eunício, é necessário que o presidente Michel
Temer (MDB) suspenda ou encerre a intervenção federal decretada na segurança
pública do Rio de Janeiro no início do ano, uma vez que a reforma é uma
propostas de emenda à Constituição. E, como reza a própria Carta Magna, PEC não
pode ser votada enquanto qualquer ente da Federação estiver sob intervenção.
A conversa foi relatada por Eunício ao site Buzzfeed,
que a reportou ontem (sexta, 9) com exclusividade. Era véspera da sessão
plenária em que senadores concederam reajuste para ministros do
Supremo Tribunal Federal e chefes da Procuradoria-Geral da República, o que
representará mais despesa para o próximo governo e uma sinalização para a
gestão Bolsonaro.
Eunício disse a Paulo Guedes que obedece à vontade da maioria dos
pares, vocalizada pelos líderes de bancada, e por isso não poderia pautar a
matéria de qualquer jeito. Lembrou ainda que há prioridades como a votação do
orçamento para 2019, que costuma centralizar as atenções dos parlamentares no
meio e no fim de cada ano. A conversa começou "em tom ameno" e depois
se tornou ríspida, disse o senador.
"Ele olhou para mim e disse que orçamento não é importante,
importante é aprovar reforma da Previdência. [...] Ele me disse: 'Vocês não
aprovam orçamento, orçamento eu não quero que aprove não'. Mas não é o senhor
querer, a Constituição diz que só podemos sair em recesso após a
aprovação", relatou Eunício, acrescentando ter sido interrompido quando
falou sobre a impossibilidade de recesso parlamentar sem a aprovação do
orçamento.
"Não, eu só quero reforma da Previdência. Se vocês não fizerem
vou culpar esse governo. Vou culpar esse Congresso e o PT volta, e vocês vão
ser responsáveis pela volta do PT", bradou o economista, sempre segundo o
relato do presidente do Senado.
"Horrorizado": sobrou para Fernando Bezerra depois que Eunício deixou Paulo Guedes para falar com a PGR - Foto: Agência Senado
A certa altura da conversa, Eunício deixou a sala ao avistar a
procuradora-geral da República, Raquel Dodge, e deixou Paulo Guedes conversando
com o atual líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE).
"Então eu vi a Raquel Dodge lá na frente e saí para conversar com ela, e
ele seguiu conversando com o Fernando Bezerra, que saiu de lá
horrorizado", recorda o senador.
O Buzzfeed lembra que "o mal-estar aumentou depois da
solenidade" dos 30 anos da Constituição, quando Guedes declarou os
jornalistas, na entrada do Ministério da Fazenda, que uma "prensa"
tinha que ser dada no Senado para que a reforma da Previdência fosse logo
votada. A declaração soou, para além de pressão, como ameaça.
"Ele foi lá para a porta do Ministério da Fazenda e disse que
tem que dar uma prensa. Eu digo que aqui ninguém dá prensa. Aqui você convence,
discute, ganha, perde. Agora, prensa ninguém vai dar em mim", rebateu
Eunício.
Obsessão
Desde que foi eleito, Bolsonaro – a exemplo do próprio Paulo
Guedes e de outros próceres do novo governo, como o deputado e também futuro ministro
Onyz Lorenzoni (DEM-RS) – tem falado recorrentemente sobre a importância
que ele diz ver na aprovação da Previdência. Diante da alta rejeição da matéria
no Congresso, principalmente à primeira versão elaborada pela equipe de Temer,
o deputado do PSL passou a dizer que um texto mais palatável deveria ser
apreciado antes mesmo de sua posse, em 1º de janeiro de 2019.
Mais recentemente, noticiou-se que o trabalho de reformar a
Previdência, um mastodonte de centenas de bilhões de reais, poderia ser iniciado
antes do fim do ano por meio de alterações infraconstitucionais, que não
requerem apresentação de proposta de emenda à Constituição. No Congresso, o
clima é de ânimo zero para votar as matérias, principalmente por parte da atual
oposição (PT, PCdoB, PDT, Psol etc).
Coincidência ou não, Bolsonaro desmarcou compromissos que tinha não
só com Eunício, mas também com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). O
compromisso com o senador deveria ter sido realizado ontem (sexta, 9). Com
Maia, a agenda da próxima terça-feira (13) foi cancelada, segundo a equipe de
transição de governo que o auxilia.

Repórter do "SAITE" Congresso em Foco desde 2007, atuou antes como jornalista de cultura e assessor de imprensa do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior e da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), entre outras instituições. Em 2014, integrou a equipe do Broadcast Político, serviço de reportagem em tempo real do jornal O Estado de S. Paulo.
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