Certa
vez, aprendi com uma estudante da UFF, a história do Orixá Obaluaiê, também
conhecido como Omulu. Para quem não conhece, é aquele orixá representando pelo
corpo vestido de palhas.
A
estudante que cursava História me ensinou em uma de nossas aulas que Obaluaiê
era filho de Nanã com Oxalá. Nasceu com algumas doenças e tinha o seu corpo
coberto de chagas e cicatrizes. Temendo que as pessoas não o aceitassem,
Obaluaiê então, vestia-se com palha.
Certa
vez, passou por um povoado e pediu água para beber. Ninguém quis dar água para
aquele corpo estranho e estrangeiro. Obaluaiê então, partiu com sede, mas o
calor aumentou sob o povoado. O sol queimou a lavoura e o rio secou.
Logo, o
povo percebeu que a causa das mazelas daquele povoado surgiu no momento em que
não deram água àquele que depois descobriram ser um orixá. Reuniram então, o
pouco da água e da comida que tinham e foram levar a Obaluaiê, juntamente com
seus pedidos de perdão.
Obaluaiê
então, aceitou os pedidos fazendo com que todos prometessem nunca negar o
cuidado a quem precisasse. Só quem sofre sabe o peso da dor. Obaluaiê é o orixá
do doença e da cura, do cuidado e do temor.
Certa vez
foi a uma festa, mas não quis aparecer para que os outros orixás não vissem as
suas cicatrizes. Iansã, porém, a senhora dos ventos ficou curiosa para ver o
que Obaluaiê escondia por baixo de sua roupa de palha. Iansã dançou, dançou.
Dançou até fazer vento forte, vento de tempestade. O vento levantou as
palhas da roupa de Obaluaiê e todos os orixás viram um jovem bonito de brilho
intenso que só se assemelha ao brilho do sol.
Quando
ouvi esta história, que aprendi em uma aula, lembrei das nossas feridas, das
nossas cicatrizes. O Brasil há tempos tem muitas feridas abertas que doem em
muita gente, enquanto outros buscaram por muito tempo escondê-las sob um mito
de democracia racial, sob um mito de povo pacífico, sob um mito de anistia com
justiça para todos, entre tantos outros mitos que se fizeram verdades nas
nossas histórias.
A
escravidão, a ditadura civil militar, o descaso com a democracia nas favelas
são algumas destas feridas não cuidadas que agora aparecem sob o vento da
tempestade que nos assola.
Este
vento fez cair a máscara da hipocrisia de quem defendia uma sociedade mais
justa ou uma cultura de paz apenas para os seus. Fez cair a hipocrisia de
muitos religiosos que estão buscando atirar a primeira pedra ou apontar a
primeira arma, rompendo completamente com a mensagem de Jesus Cristo e com uma
das histórias mais contadas nas religiões cristãs, quando no sermão da
montanha, o mestre do cristianismo declarava bem aventurados os mansos e
pacíficos.
Estamos
vendo cair as máscaras daqueles que continuam a preferir Barrabás e crucificar
de vez a mensagem de amor e respeito defendida pelo profeta cristão ao contar
que enquanto os fariseus discriminavam os samaritanos, era um samaritano que
cuidava de um estrangeiro caído no meio da estrada.
Enquanto
os defensores da boa moral e dos homens de bem acusavam uma mulher de
prostituição, era o líder do cristianismo que defendia esta mulher perguntando:
quem não tiver pecado atire a primeira pedra. Quem não tiver pecado,
atire.
Vocês
devem estar se perguntando por que tantas citações religiosas se não sou uma
professora de História das religiões. Decidi falar aqui de duas religiões
diferentes para ressaltar o quanto o discurso do amor, se fazia até bem
pouco tempo, mais presente no vocabulário religioso, enquanto o
discurso de ódio frequentou durante muito tempo o vocabulário político.
Sob os
ventos de nossas tempestades atuais, o discurso de amor volta a frequentar o
vocabulário político. Defenderemos o amor. Vamos pregar o amor. São estas
apenas algumas das frases cantadas em manifestações políticas
recentes. Enquanto isso, o discurso de ódio alcança novamente as
religiões. Aliás, Paulo Freire sempre nos falou de amor. Amor pela
humanidade, amor pela potencialidade de cada um que habita a nossa sala de
aula.
Sob os
ventos de Iansã, vivemos uma tempestade. O capitalismo não se sustenta mais
como sistema social porque suas contradições alcançaram os seus limites. A
propriedade privada não consegue mais conviver com a desigualdade sem que a
violência da opressão do trabalhador não volte para o opressor. A democracia
burguesa não consegue sustentar sua ideologia frente às conquistas de direitos
das até então chamadas minorias. A natureza chegou no limite da exploração e
tem respondido de tempos em tempos com catástrofes climáticas.
Precisamos
urgentemente fazer uma sociedade menos desigual. O poder hegemônico percebeu
isso há tempos e recrudesce na extrema direita para garantir sua posição.
Estamos nos deparando com as nossas feridas e cicatrizes.
E se
formar como historiadores e professores de História durante esta tempestade não
é nada fácil. Não sejamos ingênuos em achar que os próximos anos serão
fáceis.
Mas se
formar durante a tempestade também pode ser uma forma de levantar as nossas
palhas para encontrar o nosso brilho.
Não
podemos perder o brilho dos nossos olhos, encontrado nos bons encontros das
salas de aula. E este brilho está na resistência cotidiana, na força do dia a
dia das aulas de vocês. Nas aulas de história de vocês, a menina negra não vai
diminuir o seu black. Nas aulas de história de vocês, a filha da
empregada não vai deixar de sonhar com a universidade. E vai ensinar a mãe dela
que é preciso defender os direitos trabalhistas e que é preciso votar em quem
não vota contra a empregada doméstica. Nas aulas de vocês o jovem gay não vai
fingir ser outra pessoa apenas para agradar aos outros.
Nas aulas
de vocês, o jovem que pensa diferente, mesmo que pense muito diferente do
professor ou da professora vai ser respeitado como um portador de opinião,
aprendendo assim a construir uma sociedade democrática que somente pode ser
intolerante com o desrespeito aos direitos humanos construídos sob muita luta.
Pelas
aulas de vocês, pretos e pretas, não vão sair da universidade, as mulheres não
vão largar o mercado de trabalho, a comunidade lgbt não vai deixar de viver o
seu amor. Manteremos juntos cotidianamente esta conquistas.
Nas aulas
de vocês, a história do Brasil e do mundo não será um mero número, uma
estatística de quantas mortes em uma guerra.
As aulas
de vocês serão habitadas pelas histórias de vidas do João Cândido, da Marielle,
da Luiza Mahin e tantas outras histórias que não serão esquecidas, não
retrocederão.
Não
retrocederemos, não cederemos, não nos silenciaremos porque somos professores e
professor nunca teve vida fácil. Nos formamos aprendendo o que é desafio,
o que é conflito e o que é contradição. Nossa profissão é sinônimo de luta. Nos
alimentamos dela. Colegas, bem-vindas e bem-vindos à luta"

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