
Vivemos
num país onde qualquer vereador de província ou dono de restaurante tem hoje um
jornalista profissional como assessor de Imprensa.
Jair Bolsonaro, o presidente eleito, ainda não tem e, se
depender dos filhos dele, não terá tão cedo, embora não faltem candidatos.
Pensando bem, assessor para quê?, se já tem muitos coleguinhas
fazendo esse serviço de graça.
São porta-vozes voluntários do novo governo que fazem a defesa
do presidente e publicam press-releases eletrônicos em suas colunas assinadas.
Grupos inteiros da grande mídia, como a Record, o Estadão e a
Jovem Pan, já colocaram todas as suas equipes à disposição do presidente
eleito.
Por fugir à regra do pensamento único da nova ordem, a Folha
tornou-se o alvo predileto de pai presidente e filhos parlamentares.
Em sua edição de segunda-feira, o jornal publicou matéria sobre
a comunicação do novo governo e a possível contratação de um assessor de
imprensa.
“Se alguém ainda compra a Folha, já pode economizar no papel
higiênico”, reagiu nas redes sociais, com a classe de costume, o primogênito
Eduardo Bolsonaro.
Ao dividir o país entre amigos e inimigos, quem manda e quem
obedece, mesmo antes da posse, Bolsonaro e os três filhos parlamentares
delimitaram o campo das relações com a imprensa.
O presidente eleito já tinha ameaçado tirar a publicidade do
governo e chegou a decretar a morte da Folha, dias antes da eleição, ao ser
denunciado por uso de caixa dois em sua campanha nas redes sociais.
Um relacionamento civilizado, respeitoso e republicano com a
imprensa é tão importante quanto a articulação política do governo no
Congresso, mas os Bolsonaro já deixaram claro que não pensam assim.
Digo isso com a experiência de quem ocupou este cargo de
responsável pelas relações do presidente com a imprensa nos dois primeiros anos
do governo Lula (2003-2004).
Não foi fácil, ao contrário. Era uma batalha permanente dos dois
lados do balcão da notícia, porque as naturezas, os objetivos e os tempos
destes dois poderes são diferentes, por vezes opostos.
Mas as democracias ainda não encontraram uma forma de se
relacionar com a sociedade sem a intermediação da imprensa, com a participação
de jornalistas profissionais nas funções de assessores e porta-vozes do
presidente.
Claro que os governos sempre buscarão profissionais que se
identifiquem com suas políticas e sejam capazes de defendê-las, mas há limites
éticos a serem respeitados.
Sejam repórteres, de um lado, ou assessores governamentais de
outro, todos têm compromisso com a informação correta, porque prestam um
serviço, acima de tudo, à sociedade, e não apenas a quem lhes paga o salário.
No Brasil de 2018, misturou tudo. Já não se sabe mais quem é
assessor informal do governo ou quem é profissional de uma redação.
Só uma coisa é certa: os dois lados estão se lixando para a
sociedade, com raras e honrosas exceções.
Falando geralmente em pé, no improviso do chamado
“quebra-queixo” (câmeras e microfones apontados para sua boca), cercado de
seguranças e seguidores fiéis, o presidente eleito parece estar sempre
contrariado ao dar entrevistas, mesmo que seja para empresas amigas.
Dá a impressão de que ele não deve satisfações a ninguém, e está
ali apenas fazendo um favor aos jornalistas, ao falar de qualquer assunto como
se estivesse num churrasco de fundo de quintal.
Pode ser sobre a privatização da Petrobras ou a reforma da
Previdência, a saída dos médicos cubanos ou a nomeação de mais um ministro,
Bolsonaro fala sempre aos trancos, no mesmo tom desafiador empregado pelos seus
filhos nas redes sociais.
Mais do que um simples assessor de imprensa, como eu fui, Jair
Bolsonaro precisa urgentemente de um intérprete, para explicar o que quer
dizer, e não ter que, a toda hora, se desmentir depois, dizendo que foi mal
entendido.
Candidatos para exercer essa função não faltam, pois já fazem
esse trabalho de forma voluntária para ele nas empresas onde atuam, a maioria
delas alinhadas à nova ordem.
Aliados do novo presidente sugeriram até o nome do jornalista
Alexandre Garcia, da TV Globo, que já exerceu a função de porta-voz no governo
do general João Figueiredo, o último do ciclo dos militares no poder.
Tem tudo a ver, mas pouco importa quem seja o jornalista.
Um governo democrático precisa tanto de comunicação profissional
como de especialistas nas áreas técnicas e de um articulador político que seja
do ramo.
Até o êmulo Donald Trump, que governa pelo Twitter, tem seus
porta-vozes oficiais na Casa Branca para fazer a mediação com os jornalistas.
Vem sendo uma relação conflituosa, mas é melhor do que deixar
tudo por conta dos filhos nas redes sociais.
Logo os mentores da nova ordem vão descobrir que governar é bem
diferente de disputar campanha eleitoral disparando fake-news para derrotar os
adversários.
Faltam 41 dias para a posse, ainda dá tempo.
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