PRISÃO NO 1º DE MAIO
"Só não me venham com mentiras", reagiu Maria Laiz, mãe de Genoíno, quando soube da volta do filho a prisão
por Paulo Moreira Leite *
A
prisão de José Genoíno é um novo sinal político. Só durante a ditadura os
militantes do movimento operário eram presos no 1 de maio. Depois disso, a data
era respeitada. Havia um compromisso tácido, um respeito por aqueles milhões de
brasileiros que ajudaram a transformar o país numa democracia.
--Só não me venha com mentiras,
meu filho, disse ao deputado José Guimarães, irmão de Genoíno.
Justo Genoíno, que
tentou organizar trabalhadores rurais no Araguaia, onde seu partido, o PC do B,
queria montar uma guerrilha contra a ditadura militar. Que foi torturado. Que
ajudou a aprovar as principais leis a favor dos assalariados no Congresso, onde
foi uma das lideranças mais importantes desde a democratização. Que ajudou a
incluir cláusulas democráticas na Constituição.
(E que
continuou vivendo com a dignidade de seus vencimentos de parlamentar num sobrado
comprado com financiamento da Caixa na Vila Indiana, Zona Oeste de São Paulo).
Este
é o corrupto preso do 1 de maio.
Como
disse dona Maria Laiz: “só não me venha com mentiras, meu filho.”
É
mais engraçado do que isso.
Pimenta
da Veiga, um dos fundadores do PSDB, ministro das Comunicações no segundo
mandato de Fernando Henrique Cardoso, é hoje candidato ao governo de Minas
Gerais.
A
Polícia Federal informa, desde 2006 – está lá, no inquérito 2474 que ficou
escondido dos ministros do STF até o julgamento da AP 470 -- que
Pimenta da Veiga recebeu R$ 300 000 das agências de Marcos Valério.
Até
agora, Pimenta não foi julgado nem condenado. Já colheu um benefício: o tempo
trabalha para ele. A PF encontrou zero centavo a mais na conta de José Genoíno.
Também apurou as contas de familiares – e nada. O ministério público atesta sua
honestidade. Admite isso.
Mas ele voltou a Papuda, ontem.
O
dinheiro caiu na conta de Pimenta da Veiga muitos meses antes de várias
remessas da AP 470. Seu valor é maior até do que os R$ 296 000 que Henrique
Pizzolato mandou um auxiliar buscar no Banco Rural. Como já lembrei aqui, é
seis vezes maior que os R$ 50 000 que João Paulo recebeu na mesma instituição.
João Paulo disse que usou o dinheiro para fazer pesquisas eleitorais e até
encontrou uma testemunha para confirmar a história. Pizzolato garante que não
colocou a mão no dinheiro e mandou para o PT. Acredite você no que quiser. A
quebra do sigilo fiscal e bancário de Pizzolato não conseguiu demonstrar que
ele mentia.
Pimenta
da Veiga, ao contrário de Pizzolato e de João Paulo, admitiu que o dinheiro foi
para ele. Explicou que eram honorários advocatícios.
Ao
contrário de João Paulo, não apresentou documentos para provar o que dizia além
de sua própria palavra. Quando os policiais perguntaram qual era a
causa que poderia justificar honorários tão bons, Pimenta alegou que
fizera serviços internos para as agencias de Marcos Valério. Ele, que acabara
de deixar o ministério das Comunicações, três meses antes do dinheiro entrar na
conta, já estava advogando para as agencias do valerioduto. Em serviços
internos.
Recebeu um
dinheiro que, com algum reforço, daria para Genoíno comprar
uma casa ao lado da sua.
Terá muito
mais chances de provar seus pontos de vista. É o correto.
Pela
idade, tem 100% de chances de escapar das penas a que eventualmente venha ser
condenado porque já terá completado 70 anos, quando a denúncia – se for feita –
estará prescrita. Olha outro momento de sorte. Outro azar de Genoíno. Ele
completa 68 anos amanhã, na cadeia.
Confesso
não saber se Pimenta é culpado de alguma coisa. Acho errado pré condenar
qualquer pessoa. Ele tem o direito de ser tratado como inocente, até que se
prove o contrário.
A
discussão política, contudo, é útil.
Numa
tentativa tosca para justificar o retrorno de Genoíno a prisão, Joaquim Barbosa
praticou um truque demagógico manjado. Apresentou estatísticas que mostram o
elevado número de prisioneiros que têm doenças semelhantes a de
Genoíno e nem por isso cumprem regime domiciliar.
É um
truque que se utiliza de dados verdadeiros para sustentar teses falsas quando é
conveniente. Não vamos lembrar os muitos momentos históricos em que isso foi
feito porque seria muito constrangedor. Basta dizer que seu efeito é estimular
o ressentimento e não a vontade de Justiça.
Numa
homenagem ao 1 de maio, não custa lembrar um episódio comum sob a
ditadura militar. Sempre que os trabalhadores faziam greve, os amiguinhos dos
generais na política e na imprensa diziam que os sindicatos eram
egoístas, queriam dar aumento para quem já ganhava bem, tinha carteira
assinada, enquanto a maioria do povo vivia na miséria. Entendeu, né? É por isso
que aos 89 anos dona Maria Laiz sempre avisa que não quer ouvir mentiras.
Este
mesmo raciocínio se tenta aplicar hoje contra Genoíno. Todo mundo sabe que ele
sofre de uma cardiopatia grave, ainda que controlada. A mortalidade de sua
doença é alta, ainda que sua cirurgia de implante de um tubo de PVC no peito
tenha sido feita pelos melhores médicos do país.
Qualquer
médico sabe que ele estará melhor em casa, em situação de melhor conforto e
cuidado, do que num presídio. Os médicos que examinaram Genoíno discordam sobre
a conveniencia de enviá-lo para a Papuda.
A
maioria dos médicos que examinou Genoino deixou claro, por vias claras ou
indiretas, que as condiçoes de tratamento em casa são melhores. Elas ajudam a
explicar sua recuperação. É sintomático que ninguém tenha ficado surpreso com o
fato de que Joaquim Barbosa tenha optado pelo laudo mais favorável ao
encarceramento. Medicina? Não. Política.
Numa
atitude correta, mas cuja razão de fundo é fácil de adivinhar, Joaquim
autorizou o médico de Genoíno a entrar na Papuda a qualquer momento.
O
médico particular de Genoíno mediu sua cogulação e prova, com base em laudos do
laboratório Sabin, um dos mais respeitados de Brasília, que seus índices estão
abaixo da média recomendável. O índice de é de 1,7, enquanto o recomendável
fica entre 2 e 3.
Os
outros prisioneiros-pacientes da Papuda têm o mesmo atendimento? Têm o mesmo
médico? É claro que não. Infelizmente.
Está
errado? Não. É um direito dos ministros do Supremo.
A
desigualdade estrutural de um país não impede nenhuma pessoa de fazer o que
tiver a seu alcance – dentro da lei -- para defender seus direitos.
É
errado culpar um indivíduo pelo conjunto de mazelas de uma sociedade. É uma
espécie de covardia retroativa. Um dos mais eruditos juizes da Suprema Corte
dos Estados Unidos, Antonio Scalia, de insuspeitas credenciais conservadoras,
deu uma lição inestimável para o debate desses
casos.
Lembrou
que ninguém pode ser responsabilizado individualmente pelos erros das gerações
passadas.
Num
debate sério, produtivo, Genoíno deveria ser comparado com com pessoas de
condição equivalente. Por exemplo, Pimenta da Veiga.
O
problema aí é um efeito desagradável. Na condição de relator da AP 470, Joaquim
Barbosa foi um dos responsáveis, ao lado do procurador geral Antonio
Fernando de Souza, de manter o laudo 2474 em segredo de Justiça – e ali
aparecia o curioso pagamento a Pimenta da
Veiga.
O ministro do STF Celso de Mello chegou a cobrar, em tom indignado, que o 2474
fosse exibido aos ministros, antes do julgamento. Joaquim se negou. Disse que
não traria maiores novidades. Alegou que poderia provocar novos atrasos. Foi
uma pena.
Na época
ninguém estava prestando a devida atenção ao julgamento. A maioria
dos observadores apenas engrossava o coro de “Morte aos cães!” que eles tanto
condenavam quando era ouvido em tribunais stalinistas. Mas seria curioso tomar
conhecimento de casos fora do roteiro do “maior espetáculo da terra.”
Imagine se, por acaso, alguém entrasse na página 179 do Relatório da Polícia
Federal, incluído no inquérito, e encontrasse o dinheiro para Pimenta da
Veiga.
Quinze vezes mais do que o
dinheiro recebido pelo professor Luizinho que, após oito anos de massacre
midiático, foi inocentado.
A
postura combativa mesmo na prisão lhe gerou punições suplementares
quando Genoíno organizou um protesto pela morte de Vladimir Herzog,
o jornalista assassinado no porão pela atividade militante no PCB,
em 1975. Estimulados por Genoíno, os presos batiam nas grades, gritavam o nome
de Herzog, faziam todo barulho que conseguiam. Por causa disso, Genoíno foi
punido e enviado para o Ceará, onde teve de cumprir parte de usa pena. Saiu arrastado da cela.
Essa é a
diferença, que salta aos olhos no 1 de maio.
--
Não me venha com mentiras, meu filho.
* Paulo Moreira Leite
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