Saturnino Braga e a virtude da política
Ex-senador e
ex-prefeito publica testemunho de uma geração que fez vida pública com decência
por Nirlando Beirão

Dias sobre Saturnino: ele não sufoca a coragem (Crédito: Sergio Dutti)
A poeira de hipocrisia, safadeza,
desfaçatez, intolerância e ignorância levantada pelos políticos carnavalescos e
pelo Judiciário fanfarrão neste infeliz ano de 2017 empana a memória de tempos
em que a atividade pública era exercida – pelo menos por alguns – com honradez,
patriotismo, convicções, debate e honestidade.
Roberto Saturnino Braga percorreu
todas essas virtudes em suas mais de cinco décadas em prol da democracia, mesmo
tendo tido acesso, como deputado federal, senador da República, prefeito do Rio
de Janeiro e vereador, ao poder que, aos outros, tenta e corrompe.
Num contraponto gritante ao que se
assiste hoje no Brasil e, em particular, no Rio devastado ao qual
Saturnino dedicara sua energia política e sua inteligência criativa, ele deu
adeus aos cargos e aos mandatos sem se deixar macular por um único arranhão
ético.
Em Itinerância, que acaba
de ser lançado pela Editora Contraponto, Saturnino Braga pede a palavra para
rememorar, com modéstia tranquila, uma trajetória que começa no agora tão espezinhado
BNDE (hoje, BNDES).
De cara presta um inesperado tributo ao
então superintendente: Roberto de Oliveira Campos. É, foi graças ao futuro
mentor econômico da ditadura que, em 1956, tempos de democracia, o jovem
Saturnino conseguiu assumir o cargo que conquistara em concurso e que tentaram
lhe barrar. A ele, e aos também economistas Juvenal Osório e Ignácio Rangel.
Veto ideológico. O Dops dedou que
Saturnino fora da Juventude Comunista (mas nunca do Partido) e viajara à
Polônia e à União Soviética. Campos bancou a nomeação da trinca junto ao já
trevoso ministro da Justiça, Armando Falcão. Por ironia, Saturnino derrotaria
nas urnas esse mesmo Roberto Campos ao voltar ao Senado em 1998, pela legenda
do PSB. Boa parte de sua militância ele a passou abrigado no PDT de Leonel
Brizola, com quem viveu amizade e crises.
Assim como Brizola, padeceu do intenso
bombardeio da mídia oligárquica. Sobretudo, experimentou o peculiar conceito de
democracia que as Organizações Globo apregoam, com seu histórico
farisaísmo. Ficou carimbado por ter presidido, deputado estreante, em 1966, a
CPI Globo/Time Life – que tanto incomodou o doutor Roberto Marinho. Saturnino
fez o que tinha de fazer. Foi parar no índex do jornal e da emissora.
“Fui político de esquerda toda a
minha vida”, afirma. E continua sendo. Desde cedo foi exposto ao “sentimento de
solidariedade humana, de compaixão com o sofrimento e a humilhação da pobreza,
de inconformidade com as desigualdades entre ricos e pobres, entre afortunados
e condenados à pobreza pela origem da vida, pelo preconceito da sociedade, não
pelos méritos e deméritos de cada um”.
Saturnino aliou-se a uma geração que teve Ulysses Guimarães, Mário Covas
e Tancredo Neves – e que fez da política um raro desempenho de dignidade
cívica. Como escreve Mauricio Dias na apresentação, Saturnino Braga “é marcado
por invejável serenidade política. Ele, porém, não sufoca a coragem”.
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