Por Antonio Mello* Galeano:
'Quem deu a Israel o direito de negar todos os direitos?'
Artigo
de Eduardo Galeano de 2012, que parece se referir os acontecimentos de hoje tal
a persistência do e repetição dos fatos
Este texto do escritor Eduardo Galeano parece ter sido escrito
agora, embora infelizmente Galeano tenha morrido em 2015. É que tamanha é a
atualidade, não apenas nas ideias, mas nos fatos, acontecimentos, que dá para
dizer que o genocídio dos palestinos por Israel é não uma reação de agora, mas
um projeto que não vem de hoje. Este texto é de 2012.
Para justificar-se, o terrorismo de estado fabrica terroristas: semeia ódio e colhe pretextos. Tudo indica que esta carnificina de Gaza, que segundo seus autores quer acabar com os terroristas, acabará por multiplicá-los.
Desde 1948, os palestinos vivem condenados à humilhação perpétua.
Não podem nem respirar sem permissão. Perderam sua pátria, suas terras, sua
água, sua liberdade, seu tudo. Nem sequer têm direito a eleger seus
governantes. Quando votam em quem não devem votar são castigados. Gaza está
sendo castigada. Converteu-se em uma armadilha sem saída, desde que o Hamas
ganhou limpamente as eleições em 2006. Algo parecido havia ocorrido em 1932,
quando o Partido Comunista triunfou nas eleições de El Salvador. Banhados em
sangue, os salvadorenhos expiaram sua má conduta e, desde então, viveram
submetidos a ditaduras militares. A democracia é um luxo que nem todos merecem.
São filhos da impotência os foguetes caseiros que os militantes do Hamas, encurralados em Gaza, disparam com desajeitada pontaria sobre as terras que foram palestinas e que a ocupação israelense usurpou. E o desespero, à margem da loucura suicida, é a mãe das bravatas que negam o direito à existência de Israel, gritos sem nenhuma eficácia, enquanto a muito eficaz guerra de extermínio está negando, há muitos anos, o direito à existência da Palestina.
Já resta pouca Palestina. Passo a passo, Israel está apagando-a do
mapa. Os colonos invadem, e atrás deles os soldados vão corrigindo a fronteira.
As balas sacralizam a pilhagem, em legítima defesa.
Não há guerra agressiva que não
diga ser guerra defensiva. Hitler invadiu a Polônia para evitar que a Polônia
invadisse a Alemanha. Bush invadiu o Iraque para evitar que o Iraque invadisse
o mundo. Em cada uma de suas guerras defensivas, Israel devorou outro pedaço da
Palestina, e os almoços seguem. O apetite devorador se justifica pelos títulos
de propriedade que a Bíblia outorgou, pelos dois mil anos de perseguição que o
povo judeu sofreu, e pelo pânico que geram os palestinos à espreita.
Israel é o país que jamais
cumpre as recomendações nem as resoluções das Nações Unidas, que nunca acata as
sentenças dos tribunais internacionais, que burla as leis internacionais, e é
também o único país que legalizou a tortura de prisioneiros.
Quem lhe deu esse direito, Israel?
Quem lhe deu o direito de negar
todos os direitos? De onde vem a impunidade com que Israel está executando a
matança de Gaza? O governo espanhol não conseguiu bombardear impunemente o País
Basco para acabar com o ETA, nem o governo britânico pôde arrasar a Irlanda
para liquidar o IRA. Por acaso a tragédia do Holocausto implica uma apólice de
eterna impunidade? Ou essa luz verde provém da potência manda chuva que tem em
Israel o mais incondicional de seus vassalos?
O exército israelense, o mais
moderno e sofisticado mundo, sabe a quem mata. Não mata por engano. Mata por
horror. As vítimas civis são chamadas de “danos colaterais”, segundo o
dicionário de outras guerras imperiais. Em Gaza, de cada dez “danos
colaterais”, três são crianças. E somam aos milhares os mutilados, vítimas da
tecnologia do esquartejamento humano, que a indústria militar está ensaiando
com êxito nesta operação de limpeza étnica.
E como sempre, sempre o mesmo:
em Gaza, cem a um. Para cada cem palestinos mortos, um israelense. Gente perigosa,
adverte outro bombardeio, a cargo dos meios massivos de manipulação, que nos
convidam a crer que uma vida israelense vale tanto quanto cem vidas palestinas.
E esses meios também nos convidam a acreditar que são humanitárias as duzentas
bombas atômicas de Israel, e que uma potência nuclear chamada Irã foi a que
aniquilou Hiroshima e Nagasaki.
A chamada “comunidade
internacional”, existe? É algo mais que um clube de mercadores, banqueiros e
guerreiros? É algo mais que o nome artístico que os Estados Unidos adotam
quando fazem teatro?
Diante da tragédia de Gaza, a
hipocrisia mundial se ilumina uma vez mais. Como sempre, a indiferença, os
discursos vazios, as declarações ocas, as declamações altissonantes, as
posturas ambíguas, rendem tributo à sagrada impunidade.
Diante da tragédia de Gaza, os
países árabes lavam as mãos. Como sempre. E como sempre, os países europeus
esfregam as mãos. A velha Europa, tão capaz de beleza e de perversidade,
derrama alguma que outra lágrima, enquanto secretamente celebra esta jogada de
mestre. Porque a caçada de judeus foi sempre um costume europeu, mas há meio
século essa dívida histórica está sendo cobrada dos palestinas, que também são
semitas e que nunca foram, nem são, antissemitas. Eles estão pagando, com
sangue constante e sonoro, uma conta alheia.
*Antonio
Mello Escritor, blogueiro do Blog
do Mello, autor dos romances ELA e Madame Flaubert (linktr.ee/blogdomello)
publica uma crônica todo domingo aqui na Fórum.
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