Fenômeno Lula pauta o mundo na viagem de maior repercussão e a mídia cacareja por Washington
(Foto: Ricardo Stuckert/PR/Fotos Públicas)

Presidente Lula é recebido pelo presidente Xi Jinping
Lula ousa influenciar a ordem
internacional com mesmo discernimento que o levou a ser a figura dominante da
história brasileira neste primeiro quarto de século
P O R
Mario Vitor Santos
Mario Vitor Santos é jornalista. É colunista do 247 e apresentador da TV 247. Foi ombudsman da Folha e do portal iG, secretário de Redação e diretor da Sucursal de Brasilia da Folha.
A mídia brasileira respirou aliviada nesta terça-feira, quando o presidente Lula discursou dizendo mais uma vez que condena a invasão da Ucrânia.
A última semana foi de uma disjunção entre o impacto da visita
da presença internacional de Lula na China, nos Emirados e com o chanceler
russo no Brasil e a recepção biliosa das notícias pela mídia de direita aqui no
país.
Em uníssono, o pool de veículos de direita
odiou que Lula tenha declarado sua preferência para que o comércio entre Brasil
e China seja realizado nas moedas dos dois países, evitando os riscos do
dólar.
Lula disse ainda que a responsabilidade pelo
conflito na Ucrânia é também dos Estados Unidos e União Europeia, que não têm
interesse no fim da guerra. Alinhou-se à sua anfitriã China, aliada informal da
Rússia, na defesa de um cessar-fogo imediato para que se abram negociações para
a paz.
As manifestações do presidente suscitaram a
mais ampla repercussão internacional. Abalaram Washington, onde o porta-voz do
Conselho de Segurança Nacional, John Kirby, acusou o brasileiro de repetir a
propaganda da Rússia e da China.
A declaração sobre desdolarização não poderia
ter impacto maior, com reações da secretária do Tesouro dos EUA, Janet Yellen,
da presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, e dos republicanos,
como o próprio ex-presidente Donald Trump ("estamos perdendo o Brasil para
a China").
Apesar
de um certo deixa-disso em relação a Lula, Washington seguiu nesta terça-feira
manifestando sua inconformidade em relação a Lula, que emendou a viagem com uma
recepção ao próprio chanceler russo em Brasília, Sergey Lavrov.
Desde as eleições e posse, a mídia corporativa lavajatista
de direita brasileira vinha tolerando tudo de Lula, inclusive supostos deslizes
verbais em meio a improvisos.
Agora,
quando a ação de Lula ameaça, como disse um analista, a rainha do
formiga-rainha, o domínio da Casa Branca sobre a geopolítica e as finanças,
jornalistas e veículo entram em surto coletivo.
A Folha grafou em editorial que "Lula perdeu a mão". O
Estadão sentenciou que "Lula transformou o Brasil em sabujo dos interesses
chineses só é exclusivamente para se distanciar dos Estados Unidos, o velho
vilão da esquerda brasileira". Já O Globo disparou um alerta ameaçador
diante de seu histórico: "O perigo de provocar americanos é europeus é
evidente: Lula arrisca levar um tombo".
De resto, um pequeno exército de colunistas desfilou nos
veículos, telejornais, rádios abraçando as mesmas aflições derivadas do
contrariedade causada junto à sede do império. As opiniões sempre vieram
acompanhadas de conselhos o que o presidente pode ou não pode falar.
O que quase ninguém considerou é a possibilidade de que o
presidente tenha emitido essas opiniões em total consciência de seu teor e da
repercussão política que tencionava obter e efetivamente obteve.
Lula sabe que os golpes de 2014 em Kiev e o que depôs Dilma
Rousseff são gêmeos, ambos com intenso envolvimento estadounidense. Aliás,
Lula reconduziu Dilma a uma posição de poder nesta viagem de forma significativa.
Não lhe deve deve escapar o apoio da direita e de sua mídia a
esses dois golpes. Ambos redundaram em processos eleitorais questionáveis
que levaram a extrema-direita ao poder, sendo que na Ucrânia forças que
reivindicam o passado de apoio ao nazismo chegaram ao poder. Foram os avanços
da Otan, incentivados pel Casa Branca, que suscitaram a reação de Putin.
Mais do que isso, Lula acompanha as mudanças em curso na
geopolítica global. Sua ação antecipa a decadência estadounidense e europeia. Essa
diplomacia presidencial evolui de acordo com uma nova lógica em que o Brasil
pretende surgir como uma das lideranças do chamado sul global no contexto de um
mundo multipolar resultante da decadência da ordem regida pela Casa Branca.
Tal possibilidade os adversários de Lula, por não querem
considerar em sua miopia conservadora nem sempre desinteressada.
Jamais uma viagem de presidente brasileiro teve tantas ideias
sinceras e propostas corajosas nem repercussão comparável a esta.
Com elas, o presidente pautou o mundo inteiro. Já no Brasil, em
sua submissão, a mídia se apavora quando um fenômeno como Lula ousa influenciar
a ordem internacional com o mesmo discernimento que, não à toa, o levou a
ser a figura dominante da história brasileira neste primeiro quarto de século.
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