por Gustavo Jose Conde*,
linguista
"Desde
que começou a cumprir essa pena absurda em Curitiba, escandalosamente ilegal,
persecutória e política, Lula reorganizou seus ímpetos e sua inteligência. Ele
jamais sucumbiria diante de algozes tão covardes e violentos. Não é do seu
feitio, não é de seu caráter.
Limitada
sua ação como interlocutor
voraz da cena pública, Lula deslocou suas qualidades de negociador para uma
instância diferente e igualmente poderosa: a escrita.
Preso,
Lula passou a escrever diariamente, em folhas de caderno, com mensagens e
bilhetes para lideranças políticas e sindicais do Brasil inteiro. Assim, ele
costurou uma aliança extremamente complexa no campo das esquerdas,
evidentemente com o auxílio qualificado de Fernando Haddad e Gleisi
Hoffmann.
Mas essa
nova competência posta em prática, a arte da escrita, é mais um daqueles
momentos que assombram quem acompanha a trajetória de Lula. Lula levou para o
texto escrito todo o seu poder de persuasão e toda a sua dicção política e
humana.
O artigo
que ele escreveu para o jornal The New York Times marca esse momento do
nascimento de um novo estilo de texto. Ele, Lula, está lá, em cada linha, em
cada parágrafo, em cada pontuação.
Antes que
alguém pense que políticos não escrevem seus próprios artigos - o que é real -
aviso de bate-pronto: no caso de Lula, agora, é diferente. Porque Lula está
preso. Porque Lula está tomado pelo imenso poder que é ser um homem sozinho
diante de si mesmo e diante de um sistema que quer eliminá-lo e proscrevê-lo.
Nessas situações, quem tem caráter, toma todo o espectro das ações de
resistência, até das ações mais singelas como a delicada redação de uma
mensagem.
No artigo
do New York Times, Lula está lá, em todos os lugares, com seu estilo, com sua
verve, com o contrato particular que ele trava com os sentidos das palavras.
Escrever, afinal, não é apenas dominar protocolos gramaticais. Escrever é muito
mais do que isso.
A escrita
de Lula é
diferente. Os períodos são curtos, a sintaxe é minimalista, as escolhas
lexicais são densas e simples e o ethos (o tom) consegue reproduzir fielmente
sua marca emocional, visceral, de ser alguém que fala com o coração e ao mesmo
tempo com extrema inteligência no controle do discurso.
Há muitas
marcas de oralidade no texto de Lula que, ao invés de fragilizar uma escrita
protocolar e obrigatoriamente técnica, fortalece-a, deixando-a mesmo mais
poderosa do que a assinatura que a recobre.
Para os
incrédulos acerca do talento literário de Lula - os céticos de plantão,
habitantes da caixinha do senso comum -, adianto: o estafe de Lula certamente
'costurou' algumas passagens do texto, dadas as exigências protocolares de um
artigo a ser publicado no jornal mais importante do mundo.
Mas isso
é praxe até para os mais insuspeitos intelectuais dotados de prestígio
acadêmico. Como revisor profissional, posso garantir, inclusive, que há muitos
missivistas em operação na cena do comentário nacional cuja qualidade do texto
bruto faria
qualquer professor de ensino médio tremer.
Lula está
neste texto do The New York Times como talvez em nenhum outro anterior. À
medida em que o cerco a ele e às eleições se fecha, todo o processo simbólico
de resistência se adensa. O Lula escritor é mais um lance espetacular da
história que, por mais que se tente, não cessa sua ação de consagração aos protagonistas
políticos verdadeiramente investidos de legitimidade popular.
Lula
escreve tão bem que até traduzir o seu texto de uma língua para outra é fácil.
É a linguagem universal. De fato, Impressiona. Ele lida com os sentidos das
palavras de um jeito único, humano, límpido, singelo, sem tergiversar, sem
querer impressionar, sem os trambiques academicistas que fazem os textos da
elite parecerem
monumentos ao pedantismo. Há verdade em cada passagem, em cada trecho, em cada
palavra.
A questão
é muito técnica e afirmo isso como linguista: ele gerencia os sentidos de
maneira singular. É como uma pessoa simples dotada de profunda sabedoria que se
expressa
com todo seu corpo, sua alma e sua história.
Fica
fácil entender porque tanto amor – a percepção de afeto majoritária neste
cenário – e porque tanto ódio – a minoria que não consegue lidar com as
transferências do amor. Alguém que massageia neste nível de intensidade o
aparato de codificação dos sentidos (a interpretação social) é insuportável
para o segmento que detesta o sentido e a progressão do sentido.
Os
acumuladores compulsivos de ódio são apenas o desdobramento natural dos
acumuladores compulsivos de patrimônio: tudo
é uma
doença social degenerativa.
Diante do
amor, diante da clareza, diante da verdade, esses nichos minoritários e
barulhentos sucumbem às histerias mais grotescas. É o gatilho do nosso fascismo
extemporâneo impregnado nas classes médias. O que eles não entendem, eles
odeiam.
Por isso
a conexão de Lula com o povo é tão forte. O vínculo é de sentido, não é
ideológico. O vínculo
de Lula com o povo extrapola as intepretações grosseiras da nossa cena do
comentário sociológico que rotula qualquer coisa que não se pareça com o óbvio,
com o já dito.
Este
sujeito que tanto admiro – que o mundo admira – há tanto tempo não é apenas o
maior líder político da história. Ele é um ser dotado da mais bonita humanidade
de que se tem notícia. Por isso, o amor que ele vai deixando como rastro e como
legado, toma dimensões cada vez mais épicas de perpetuação.
Vinícius
de Moraes dizia que o amor deveria ser eterno enquanto durasse. O amor de Lula
– o amor político, o amor social, o amor por Marisa, o amor pela família, o
amor por seu povo, o amor pelos catadores de papel, o amor pelos portadores de
hanseníase, o amor pela língua, o amor pelo sentido, o amor pela história – não
tem essa cifra passional e romântica, embora ele as tenha também na grandeza do
gesto.
O AMOR de Lula transcende, é eterno e
infinito, é simbólico e solidário, é espiritual e político, doce e
revolucionário, inovador e desinteressado, pleno e delicado, emocional e
profundamente soberano.
Nós somos
contemporâneos deste ser humano. Só isso já é a maior das honrarias que nos
poderia ser concedida pela história.
Mais
uma vez, é importante que se diga: testemunhar a garra deste ser humano do lado
certo da história é a sensação máxima de liberdade".
ô-XENTE, CUIDADO, pois
as palavras na cor vermelha constam
originariamente no texto, mas os destaques e ênfases são deste BLOGUEIRO.
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